A capital francesa é o cenário do filme coletivo Paris, Te Amo, projeto cinematográfico que reuniu 21 consagrados diretores de todo o mundo e que estréia hoje nos cinemas de Brasília. O longa-metragem tem 18 segmentos, ambientados em diversas regiões da metrópole.
Dois brasileiros participam do filme, Walter Salles e Daniela Thomas, que assinam Longe do 16º. Eles entraram de maneira original na proposta do projeto, que era filmar uma história de amor em cinco minutos, em algum lugar de Paris.
A intérprete do segmento dos brasileiros é a atriz colombiana Catalina Sandino Moreno (indicada ao Oscar por Maria Cheia de Graça). Ela faz o papel de uma babá, moradora de um subúrbio pobre, que sofre por deixar o próprio filho numa creche para cuidar de outro bebê, filho dos patrões, no rico 16º distrito – um dos mais valorizados bairros parisienses.
A reunião de histórias curtas em longas-metragens foi um expediente comum nos anos 60, principalmente entre produtores europeus – alguns exemplos marcantes foram Os Sete Pecados Capitais (1962), Rogopag (1963), e Paris Vu Par… (1965).
Oportunista
Lançado em maio passado no Festival de Cannes, Paris, Te Amo recupera esse espírito oportunista (não necessariamente picareta) ao propor uma espécie de “remake” de Paris Vu Par…, com duas grandes diferenças.
Enquanto a versão de 1965 privilegiava o olhar interno, com seis episódios assinados por estrelas da nouvelle vague (Godard, Rohmer, Chabrol e Jean Rouch), o novo projeto dá prioridade a cineastas estrangeiros e assume riscos maiores, multiplicando-se por 18 curtas.
Essa opção é curiosa. A superfragmentação, ao mesmo tempo em que acentua aquele problema irremediável dos filmes em episódios (a irregularidade), também se mostra mais adequada para somar uma visão múltipla, diversificada, de uma megalópole européia contemporânea como é Paris hoje.
Na medida em que nenhum curta ultrapassa dez minutos, a experiência da “irregularidade” é suavizada. Os olhares estrangeiros ajudam a desmistificar Paris sem perder o amor pela cidade, e o corte final encontrado pelos produtores procura uma fluidez própria, gerando um mosaico de cadência própria em um conjunto relativamente bem-sucedido.
Os caminhos propostos ora são mais previsíveis, ora surpreendentes. Foram mais bem-sucedidos aqueles que apostaram na síntese. Os brasileiros Walter Salles e Daniela Thomas, por exemplo, conseguiram fazer um “road movie” sem sair de Paris. Com pouquíssimo, dizem muito.
Estilos
Alguns cineastas que costumam gerar expectativa (como Gus Van Sant ou Wes Craven) realizaram peças burocráticas, enquanto outros, dos quais pouco podia se esperar (como Alexander Payne), surpreendem. O australiano Christopher Doyle, diretor de fotografia dos filmes de Wong Kar Wai, radicaliza na excentricidade; a queniana Gurinder Chadha se afoga na necessidade de ser politicamente correta; Joel e Ethan Coen debocham do mau humor francês de forma estereotipada, porém hilariante, enquanto Olivier Assayas, com seus flagrantes de uma atriz americana em passagem por Paris, assina um dos melhores episódios.
Mas um capítulo que se impõe de forma avassaladora por um motivo simples: reúne Gena Rowlands e Ben Gazarra, os dois lendários atores de John Cassavetes, em torno de um roteiro radicalmente afetivo assinado por Rowlands. Em um café do Quartier Latin, um casal separado conversa sobre o rumo de suas vidas. É emocionante testemunhar esse encontro de gigantes, registrado da forma mais simples possível pelos diretores Frédéric Auburtin e Gérard Depardieu.