Muito receptivos e conhecedores da dança flamenca. É assim que a bailarina espanhola Beatriz Barceló define os brasileiros. Aos 34 anos, ela visita pela segunda vez o Brasil para dividir com os alunos a magia e a sensualidade do flamenco, no Seminário Internacional de Dança de Brasília. “É uma experiência enriquecedora. O interesse dos brasileiros pela música espanhola é enorme. É um grande prazer estar aqui”, disse a dançarina ao Jornal de Brasília.
Beatriz nasceu em Madri, capital da Espanha, e começou a dançar aos nove anos. O incentivo veio de dentro de casa, já que tem uma família de artistas, com pai pintor e mãe música. Primeiro ela se encantou pela música clássica espanhola e depois conheceu o flamenco.
Com 12 anos começou a pesquisar e estudar o estilo. Hoje, é uma das mais conhecidas dançarinas da Espanha. “Eu me apaixonei pelo flamenco”, lembra. Antes de se tornar profissional, trabalhava em diferentes lugares para custear a dança, como passear com cachorros e cuidar de crianças.
Aos 17 anos terminou os estudos e começou a se apresentar com a companhia de dança Balet de Maria Rosa. Nesta experiência marcante, conviveu com professores capacitados e se aperfeiçoou. Beatriz ainda se apresentou em diversas companhias espanholas.
A dançarina montou a sua própria companhia, Duquelas, quando tinha 24 anos. Com seu grupo, chegou a se apresentar em diferentes países. Recentemente, realizou o sonho de ensinar o que aprendeu com tanto empenho. Comprou a escola Marta de La Vega, em Madri, onde estudou e trabalhou como professora. Esta companhia privada é considerada uma das melhores da Espanha.
Diferente do que se sabe, a dança espanhola não se limita ao flamenco. “É muito variada e envolvente”, diz Beatriz. No Seminário Internacional, que vai até dia 2 de agosto, além da arte flamenca ela também ensina a escolabolera, um estilo de dança clássica que surgiu nos séculos 18 e 19, na Espanha.
Vida e paixão Casada há um ano, a rotina de Beatriz é dividida entre o amor pela dança e as aulas sobre a história da Espanha, em uma univerdidade de Madri. “A escola é minha paixão, a dança é minha vida”, arremata.
Ensinando a cerca de 200 alunos, Beatriz, consegue sobreviver com a dança. Com seu trabalho, comprou uma casa e um carro. “Mas, agora, a dança na Espanha está em crise. O governo quer passar uma imagem de modernidade. Vamos ver onde vai dar”, lamenta.
Um dos trabalhos que realiza em Madri é ensinar para deficientes mentais. “Não é uma aula, é um trabalho de troca, onde todos fazem juntos. É gratificante”, diz emocionada a professora.
Esta é a segunda vez que Beatriz Barceló vem ao Brasil. No ano passado ela também participou do Seminário Internacional de Dança de Brasília. Do país, ela só conhece a capital federal. “É uma cidade muito interessante, gosto muito dos brasileiros, eles aproveitam as aulas e têm muito interesse pela dança flamenca”, diz a bailaora, como é chamada a dançarina de Flamenco.
Nesta semana, a dança flamenca perdeu um de seus grandes artistas. O bailarino Antonio Gades morreu de câncer. “Não cheguei a trabalhar com ele, mas ele é um dos maiores representantes da dança flamenca masculina, um dos maiores coreógrafos da Espanha”, avalia.
Beatriz diz que não conhece os grandes dançarinos do Brasil, como Carlinhos de Jesus e Ana Botafogo, mas elogia o gingado brasileiro. “No Brasil as pessoas têm corpo bom para a dança, são muito rítmicas”, afirma.
Uma das apostas da professora é a brasiliense Sarah La Kalil, de 11 anos, que dança flamenco desde os quatro. A menina encantou a professora e ganhou uma bolsa de estudo de um ano na Espanha. A viagem está prevista para janeiro e Sarah não pensa em outra coisa. “Quero aprender para no futuro ensinar o que sei”, prevê.
Sarah se apresenta em Brasília ao lado do pai, o guitarrista flamenco El Surrani, de 41 anos, que vai acompanhar a filha na viagem. A próxima apresentação dos dois será amanhã, às 16h, na Torre de TV, pelo projeto Arte por Toda Parte.
A dança flamenca conquista cada vez mais brasileiros. Muitas escolas em Brasília ensinam a arte, que exige paixão. “A gente passa um sentimento com o rosto e com o olhar. É preciso ser muito feminina para dançar, é muito sensual.”, diz Beatriz Barceló. Fica o convite da espanhola.