Menu
Promoções

Uma questão de atualidade

Arquivo Geral

09/09/2004 0h00

Quando comecei a desenvolver a idéia da trama que resultou em Senhora do Destino, resolvi situá-la, em seu início, nos idos de 1968, com a intenção de mostrar aquele período, que eu presenciei na qualidade de jornalista e também de ativista político. A minha intenção era utilizar a grande penetração da novela das oito para mostrar uma fase recente da vida do país que, mesmo tendo sido muito atribulada, já estava caindo no esquecimento. Este objetivo foi plenamente alcançado. Embora os que se consideram “donos” do assunto, autores de livros, etc., tenham ignorado solenemente a novela, o fato é que ela fez mais, principalmente entre as novas gerações, para mostrar como foram os anos de chumbo, do que tudo o que se escreveu sobre eles até aqui. Claro que o que se viu nos três primeiros capítulos da novela era apenas uma síntese da época que ela retratava. Era a realidade vista pela ótica da ficção, como convém numa novela. Ao mesmo tempo, no chamado “presente” da novela, eu pretendia situá-la o mais próximo possível da atualidade, já que é dessa, em última análise, que tanto nos idos de 68 como agora eu pretendo falar. Para atingir esse objetivo, o que eu deveria fazer se, entre as duas épocas, existe uma distância cronológica proibitiva? Eu devia fazer – levando em conta de novo que se trata de ficção, e não de um documentário jornalístico –, o que fiz e vocês estão vendo no ar, ou seja: criar o tempo ficcional da novela. Esta solução, tomada com a liberdade que a ficção me permite, e à qual os telespectadores aderiram sem discussões, é mais simples do que se pode imaginar. O tempo ficcional de Senhora de Destino é “alguns anos depois” de 1968, ou seja: é agora, assim como o distrito de Vila São Miguel, em Caxias, existe apenas nela. As pessoas que se preocupam em achar na novela minúsculos erros de época não deveriam sequer levá-la em conta já que ela se passa num lugar que não existe, e mostra pessoas que também não são verdadeiras, ou seja, é toda ela um erro, uma mentira. Se tem uma lição que eu aprendi nesses meus 26 anos de ficcionista da TV é que, quando se escreve para televisão ou cinema, deve-se privilegiar sempre e apenas a emoção e, em nome dela, colocar na tela apenas aquilo que fica melhor… e, se emoção for considerada verdadeira pelo telespectador, então tudo se acerta. É mais ou menos o que dizia aquele personagem jornalista do filme (de John Ford) O Homem que Matou o Facínora: “Quando a lenda é mais interessante que a realidade imprima-se a lenda”. Vou dar um exemplo recente, mas de outro autor que, como eu, também tem a ousadia de tudo fazer em nome da ficção: na novela O Clone, se nós fôssemos considerar o tempo cronológico real, a personagem de Vera Fischer teria engravidado com 62 anos, tendo os mesmos rosto e corpo que ela tinha aos 38. Fez diferença para o público? Alguém levou isso a sério? Não, porque, para o telespectador, qualquer filme, seriado ou novela de época é sempre encarado como o presente no momento mesmo em que ele assiste. Sabendo disso, minha única preocupação é criar espaços no roteiro que permitem uma narrativa clara das diversas histórias paralelas nesse presente, eleito pelo telespectador, em que elas aconteçam. Claro, alguém dirá: mas tem muita gente reclamando dessa liberdade que você tomou com o tempo cronológico. E aí respondo: tem, sim. Mas estes não são as pessoas que gostam de telenovelas, e que vêm dando a Senhora do Destino um público recorde (51 pontos no Ibope na segunda, 49 na terça, 49 na quarta). Estes, os grandes telespectadores, aqueles que realmente se envolvem com o nosso trabalho de autores porque se apaixonam por ele, jamais deixariam de prestar atenção em cenas como aquela entre Marcello Anthony e Tânia Kalil na praça da Vila São Miguel só pra dizer: “Ih! Isso tá errado, porque Vila São Miguel não existe!”… Ou para perceber que, enquanto os atores davam o máximo de si em homenagem a ele, telespectador, aqui na frente, lá atrás, na calada da noite e sem deixar o menor rastro na trama, passava um automóvel de fabricação recente. Aos fanáticos da continuidade e do documental, que eu tanto prezo porque, com seus comentários e e-mails, ajudam a aumentar a nossa audiência, eu digo: tudo bem, continuem vendo Carolina Dieckman e Dado Dolabela como se eles já tivessem mais de 40 anos. Mas, por favor, não levem esse fanatismo ao ponto de ficar cegos ao fato real de que, na verdade, eles estão na flor da idade e não têm mais que 26. Essa é a minha explicação, e eu tenho certeza que os meus telespectadores há muito consideram esse assunto encerrado.

Aguinaldo Silva é escritor e autor da novela Senhora do Destino.

    Você também pode gostar

    Uma questão de atualidade

    Arquivo Geral

    09/09/2004 0h00

    Quando comecei a desenvolver a idéia da trama que resultou em Senhora do Destino, resolvi situá-la, em seu início, nos idos de 1968, com a intenção de mostrar aquele período, que eu presenciei na qualidade de jornalista e também de ativista político. A minha intenção era utilizar a grande penetração da novela das oito para mostrar uma fase recente da vida do país que, mesmo tendo sido muito atribulada, já estava caindo no esquecimento. Este objetivo foi plenamente alcançado. Embora os que se consideram “donos” do assunto, autores de livros, etc., tenham ignorado solenemente a novela, o fato é que ela fez mais, principalmente entre as novas gerações, para mostrar como foram os anos de chumbo, do que tudo o que se escreveu sobre eles até aqui. Claro que o que se viu nos três primeiros capítulos da novela era apenas uma síntese da época que ela retratava. Era a realidade vista pela ótica da ficção, como convém numa novela. Ao mesmo tempo, no chamado “presente” da novela, eu pretendia situá-la o mais próximo possível da atualidade, já que é dessa, em última análise, que tanto nos idos de 68 como agora eu pretendo falar. Para atingir esse objetivo, o que eu deveria fazer se, entre as duas épocas, existe uma distância cronológica proibitiva? Eu devia fazer – levando em conta de novo que se trata de ficção, e não de um documentário jornalístico –, o que fiz e vocês estão vendo no ar, ou seja: criar o tempo ficcional da novela. Esta solução, tomada com a liberdade que a ficção me permite, e à qual os telespectadores aderiram sem discussões, é mais simples do que se pode imaginar. O tempo ficcional de Senhora de Destino é “alguns anos depois” de 1968, ou seja: é agora, assim como o distrito de Vila São Miguel, em Caxias, existe apenas nela. As pessoas que se preocupam em achar na novela minúsculos erros de época não deveriam sequer levá-la em conta já que ela se passa num lugar que não existe, e mostra pessoas que também não são verdadeiras, ou seja, é toda ela um erro, uma mentira. Se tem uma lição que eu aprendi nesses meus 26 anos de ficcionista da TV é que, quando se escreve para televisão ou cinema, deve-se privilegiar sempre e apenas a emoção e, em nome dela, colocar na tela apenas aquilo que fica melhor… e, se emoção for considerada verdadeira pelo telespectador, então tudo se acerta. É mais ou menos o que dizia aquele personagem jornalista do filme (de John Ford) O Homem que Matou o Facínora: “Quando a lenda é mais interessante que a realidade imprima-se a lenda”. Vou dar um exemplo recente, mas de outro autor que, como eu, também tem a ousadia de tudo fazer em nome da ficção: na novela O Clone, se nós fôssemos considerar o tempo cronológico real, a personagem de Vera Fischer teria engravidado com 62 anos, tendo os mesmos rosto e corpo que ela tinha aos 38. Fez diferença para o público? Alguém levou isso a sério? Não, porque, para o telespectador, qualquer filme, seriado ou novela de época é sempre encarado como o presente no momento mesmo em que ele assiste. Sabendo disso, minha única preocupação é criar espaços no roteiro que permitem uma narrativa clara das diversas histórias paralelas nesse presente, eleito pelo telespectador, em que elas aconteçam. Claro, alguém dirá: mas tem muita gente reclamando dessa liberdade que você tomou com o tempo cronológico. E aí respondo: tem, sim. Mas estes não são as pessoas que gostam de telenovelas, e que vêm dando a Senhora do Destino um público recorde (51 pontos no Ibope na segunda, 49 na terça, 49 na quarta). Estes, os grandes telespectadores, aqueles que realmente se envolvem com o nosso trabalho de autores porque se apaixonam por ele, jamais deixariam de prestar atenção em cenas como aquela entre Marcello Anthony e Tânia Kalil na praça da Vila São Miguel só pra dizer: “Ih! Isso tá errado, porque Vila São Miguel não existe!”… Ou para perceber que, enquanto os atores davam o máximo de si em homenagem a ele, telespectador, aqui na frente, lá atrás, na calada da noite e sem deixar o menor rastro na trama, passava um automóvel de fabricação recente. Aos fanáticos da continuidade e do documental, que eu tanto prezo porque, com seus comentários e e-mails, ajudam a aumentar a nossa audiência, eu digo: tudo bem, continuem vendo Carolina Dieckman e Dado Dolabela como se eles já tivessem mais de 40 anos. Mas, por favor, não levem esse fanatismo ao ponto de ficar cegos ao fato real de que, na verdade, eles estão na flor da idade e não têm mais que 26. Essa é a minha explicação, e eu tenho certeza que os meus telespectadores há muito consideram esse assunto encerrado.

    Aguinaldo Silva é escritor e autor da novela Senhora do Destino.

      Você também pode gostar

      Assine nossa newsletter e
      mantenha-se bem informado