Ô saudade dos tempos em que a receita do cinema de diversão – salpicado, sim, com todos seus temperos à Sessão da Tarde – optava pela simplicidade de roteiro e poderia muito bem deixar as rédeas soltas para que seus atores também se divertissem! Lembro, aqui, especialmente, de Jack Lemmon e Walter Matthau, a dupla cômica que deu ao pobre argumento de Dois Velhos Rabugentos feição de uma comédia suntuosa.
Quando o leitor passar pelos cartazes (se não o fez) de Antes de Partir, comédia dramática (defino por minha própria conta, já explico) que estréia hoje nos cinemas, não raro deve lembrar dos tais velhos rabugentos, ao ver a descontração dos rostos de um outro velho Jack (o Nicholson), numa parceria inédita com Morgan Freeman, que não se esforça para esconder os fios platinados.
Frustrante expectativa. Não que Antes de Partir trate do mesmo assunto que a comédia de Donald Petrie. Não está nem mesmo perto. No entanto, há um ponto de encontro entre eles, que consiste em tratar com bom humor – ou até mau humor, no caso de ambos os Jacks – as agruras da velhice. No primeiro caso, a intolerância; neste segundo, a doença.
Os personagens de Nicholson e Freeman, respectivamente o bilionário mulherengo Edward Cole e o mecânico patriarca de uma grande família Carter Chambers, assumiriam com muita prudência o cajado de seus antecessores Lemmon e Mathau. O argumento, ao contrário de Dois Velhos Rabugentos, é rico, mas sua condução é atrapalhada e o forte tema é tratado com banalidade pelo diretor Rob Reiner (de Harry e Sally, mas que andou pisando na bola recentemente, com as bobagens Alex & Emma e Dizem Por Aí).
Carter está internado com câncer num dos hospitais de Edward. Logo, o empresário tem o mesmo destino do mecânico e, devido a uma jogada de marketing, precisa dividir o quarto com ele. Edward, resmungão e auto-suficiente, aos poucos cria uma amizade de ocasião com Carter, um gênio em matéria de cultura inútil, cuja família não o deixa de visitar.
Ambos recebem a notícia de que só têm, no máximo, um ano de vida. Logo, é empurrada goela abaixo do espectador a Lista da Bota, à qual o título original se refere (The Bucket List), onde se enumera tudo aquilo que se desejaria fazer “antes de partir”. As incongruências do roteiro não tardam a impor monotonia na aventura da dupla.
Eles entraram no hospital com dores, foram submetidos a sessões de quimioterapia e, de repente, esbanjam saúde suficiente para dar uma volta ao mundo, pilotar um Mustang Shelby, andar de moto, subir o Himalaia, praticar skydiving e fornicar com a aeromoça.
Por isso sinto saudade de quando não se precisava de tanto artifício para se contar uma história. Aliás, se a trama fosse bem-sucedida, essa aventura gordurosa seria dispensável.