Elenco numeroso – mais parece a formação original do Ilê Ayê –, Mulheres Apaixonadas, vez por outra, vira exercício de concentração para o telespectador. De repente, personagens tidos como principais se diluem e abrem alas para os paralelos, que adquirem importância momentânea. Não fosse o fato de isso dispersar uma trama que já anda descarrilada, tudo bem.
Mas o sobe-e-desce desses personagens ocasionais também dá margem à inverossimilhança nos argumentos. Ok que novela não é documentário, porém existe um teto mínimo de veracidade que não precisa ser desprezado. E o hábito de se ter acesso a qualquer apartamento da trama sem passar pela portaria – as pessoas tocam a campainha direto, algo inconcebível especialmente numa cidade perigosa como o Rio de Janeiro – nem é bem o caso: as novelas brasileiras, há muito, aboliram as portarias.
O difícil de engolir é o perfil de determinadas personagens, que definitivamente não batem com esse teto mínimo de veracidade. Como entender que uma mulher instruída e independente como Raquel (Helena Ranaldi) ainda paste à sombra de Marcos (Dan Filip Stulbach), seu amado espancador de olhos cor de safira e arroubos de diabo-da-Tasmânia?
Marcos, aliás, ganha contornos de anjo-caiu-do-céu nesta novela: como consegue entrar no vestiário de uma escola classe média alta, bater em Fred (Pedro Furtado) e esmurrar os armários metálicos sem ser ouvido por ninguém? Que escola é essa, encravada em bairro nobre de uma cidade que pelo menos nessas áreas tem segurança a toda prova e que, apesar disso, parece ter acesso livre a qualquer elemento?
São perguntas que nem uma suposta bem-conduzida continuação da trama possa responder. Isso porque Mulheres Apaixonadas, afinal, também tem personagens de perfil que marca presença, seja pela postura eticamente amadurecida – caso de Lorena (Susana Vieira) e Helena (Christiane Torloni) – ou pelo caráter adoecido – como a impagável Santana que tem dado dores de cabeça a sua intérprete, Vera Holtz.
Mas talvez resida nesse trenzinho amalucado de situações o diferencial com que Manoel Carlos ainda vá compor uma história com algum teor nutritivo. Heloísa (Giulia Gam) e Marina (Paloma Duarte) descobrirão que foram feitas na mesma fôrma? Luciana vai acordar e descobrir que ainda fica melhor com os resquícios da Esmeralda de Porto dos Milagres , impetuosa como estava no início da novela, do que como uma médica de discurso decorado? Sílvia (Nathália do Vale) vai inaugurar um novo perfil de dona-de-casa burguesa camarada, que permite namoro caliente da empregada dentro de casa (e cobra taxa de adesão, já que divide o amante com ela)?
Hay que ver. Já passada a primeira centena dos capítulos, o decorrer dessa história tanto pode engrenar quanto prosseguir, até o final, desconexo. Ninguém vai reclamar, mesmo.