O carnaval das cidades históricas de Minas Gerais demonstra sua força desde as filas que se formam nos guichês da rodoviária da capital mineira onde turistas de todo o país buscam passagens para Ouro Preto, Mariana, Diamantina, São João Del Rey e Tiradentes. Nas filas, é impossível não ouvir diferentes sotaques regionais em animadas conversas de quem espera com ansiedade o início da folia.
No ônibus em direção a Ouro Preto, brasilienses, cariocas e até paraibanos que venceram milhares de quilômetros para chegar a Minas dividem os assentos. “Tem alguém da Asa Norte [região de Brasília] aí?”. A pergunta de Diego de Paula, um comunicativo barman da capital mineira, é a senha para todos interagirem, cantarem, compartilharem histórias e expectativas sobre o carnaval.
Do Distrito Federal, oito amigos resolveram viajar à cidade, berço da cultura barroca no país, para conhecer a festa cuja descrição em comunidades da internet os impressionou. Um grande atrativo foi o preço: R$ 570 pela estadia de cinco dias, em uma das dezenas de repúblicas estudantis ouro-pretanas, com direito a alimentação e bebida à vontade 24 horas por dia. Na bagagem, além da disposição para dançar e beber até a Quarta-Feira de Cinzas, também recomendações dos pais.
“ Como já cheguei a dormir na cozinha da minha da casa , falaram para eu maneirar um pouco, já que não estou em Brasília”, contou Marcos Dantas, 19 anos, que prefere ser chamado de “ Mixaria”. Apesar de aparentemente estar acompanhado de uma garota, a proximidade da festa fez como ele não admitisse um namoro. “Quando terminar o carnaval, a gente vê”, disse ele, arrancando gargalhadas dos companheiros.
As amigas Nilza e Graziela Medeiros (o sobrenome igual é apenas coincidência) chamaram a atenção de todos pela origem distante. Na última quinta-feira (19) deixaram a cidade de Patos, no interior da Paraíba, rumo ao carnaval que conheciam apenas dos flashes pela tevê de todos os anos. “Já tínhamos ido para Salvador e Pernambuco, e agora queríamos um coisa diferente”, disse Nilza.
Apesar do espírito aventureiro, ambas preferiram não optar pela hospedagem nas repúblicas, onde de oito a 12 pessoas dividem quartos. “Além de não conhecermos [as repúblicas], tem também a questão da comodidade. Na pousada fica mais privativo”, justificou Nilza. A intenção das amigas é curtir os sons e a cultura da cidade, mas não o farto cardápio etílico, tradicional no carnaval ouro-pretano. “Com certeza, dá para se divertir sem beber, porque a a animação está dentro de você “, afirmou Graziela.
As paraibanas não vão, portanto, experimentar o drink com o qual o barman Diego garante balançar o folião nas festas temáticas da república em que se hospedará. Segundo ele, trata-se de um coquetel flamejante, preparado na boca da pessoa, com licor de laranja, vodka e groselha. “Não sei se faz perder o juízo, mas altera bem o metabolismo”, brincou Diego, fã do carnaval das repúblicas. “Você se diverte, faz amigos, e não precisa sair dali para nada.”
O pagodeiro Claiton Silva, 23 anos, escolheu Ouro Preto fazer shows em distritos e repúblicas durante o carnaval. Para ele, mais do que os R$ 500 de lucro que sobra para cada integrante, é a oportunidade de curtir a festa que justifica a viagem. “Venho, bebo de graça, curto, toco e faço amigos. E depois das 3h da manhã, já dá para ir para a rua.”
A prefeitura de Ouro Preto estima que 50 mil foliões passem diariamente pela cidade, contribuindo para movimentar o comércio local. Além do carnaval das repúblicas, blocos tradicionais, escolas de samba, palcos e espaços reservados para os hits do momento garantem um carnaval para todos os gostos musicais. Resta saber se o fôlego estrá em dia para o sobe-e-desce das íngremes ladeiras.