“Na penúltima carta, a que antecedeu a remessa do seu livro, você diz que foi pena não nos termos conhecido melhor, há mais tempo. Sei que com isto não quer dizer que aprecia meus defeitos ou esquece meus erros. Mas também sei que com isto quer dizer que poderíamos, juntos, ter superado melhor nossos defeitos e erros, e provavelmente o que fizemos de certo e justo e útil seria multiplicado pelo esforço conjunto. Realmente, ao ler seu livro me dou conta de um sentimento que há muito me veio e do qual seria uma forma de pusilanimidade fugir ou me esconder: o sentimento de que sua amizade é boa, porque você é fundamentalmente bom. Completado por outro sentimento, este bem curioso e creio que, para muitos, paradoxal. A sensação de que, se nossos defeitos são diferentes, nossas qualidades são muita parecidas. Principalmente essa qualidade básica, a de ser um fazedor, muito mais do que um olhador. Olha, enquanto faz, mas não pode é deixar de fazer – porque nasceu para fazer. É um fazedor incoercível, irreprimível, incorrigível.
Esse transbordamento do ser, essa multiplicação em outros, em coisas e seres que se criam e se refaz pela nossa mão, eis o que me parece um traço comum a nós dois, e bem pouco usual, aliás. O resto são medidas de grandeza que o templo projeta e que você revela nesse livro que vai da infância ao começo da sua projeção nacional e internacional. Afora, creio, Pelé, você é o brasileiro do qual mais se falou no mundo.
Coube-lhe a oportunidade, que você soube provocar e aproveitar, da aceleração do processo revolucionário, isto é, transformador, do Brasil. Nesse processo vários se inserem, com maior ou menor intensidade, conforme as oportunidades que lhes foram dadas; inclusive a minha na Guanabara. Sua inserção do lado errado, isto é, do lado oligárquico e demagógico, não o impediu de se impor e, na medida do possível, superar essa limitação política para adquirir uma dimensão histórica. Talvez lhe tenha ficado, como em mim ficou também, a desagradável sensação de ter sido usado. Renovando nosso agradecimento pela dedicatória, aceite um abraço comovido.”, Carlos Lacerda