Antônio Carlos Jobim, o maestro soberano e gênio que influencia até hoje qualquer artista que atravesse a rica seara da música popular brasileira, foi, é e sempre será digno de tributos. Ora em jazz (está presente na lista de Ella Fitzgerald), ora em coro (a exemplo do Quarteto em Cy), ou ao piano (Mário Adnet, Mário Ariel), bem como numa big band (Orquestra Tabajara, de Severino Araújo), quando não na ideal bossa nova (Sylvia Telles, Gal Costa e Ivan Lins), a música de Tom Jobim fala todas as línguas. E hoje não será diferente – ou melhor, será único – no espetáculo instrumental Homenagem a Jobim, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional, a preços populares: R$ 10, a inteira.
Criado para lembrar o homem que fundou a bossa nos anos 50, o show será protagonizado por quatro instrumentistas, dos melhores de suas gerações e naturais de estados diferentes: Paulo Moura (de São Paulo, o mais experiente do quarteto e clarinetista contemporâneo de Tom), Armandinho Macedo (bandolinista baiano com talento consolidado ao lado dos precursores do trio elétrico, Dodô e Osmar), Marcos Suzano (carioca, o mais talentoso percussionista brasileiro desde meados dos anos 90, excluindo o insuperável Naná Vasconcelos) e Yamandú Costa (gaúcho de 25 anos, considerado novo gênio do violão brasileiro, comparado ao mestre Raphael Rabello). “A música não tem idade”, justificou oportunamente Yamandú, a esse respeito.
Em entrevista ao Jornal de Brasília, Yamandú fala do novo trabalho ao lado de Moura, Armandinho e Suzano, que estreou no início do mês em São Paulo, num evento restrito da empresa patrocinadora do show. “Este será o primeiro aberto ao público, de oito shows que faremos nessa turnê”, informa o violonista. Yamandú sugere que esta é mais uma prova cabal de que a música brasileira refinada não se delimita por classe social: “Sempre se fala que é elitizada, porque os ingressos são caros e os lugares são poucos. Fico feliz quando conseguimos colocar preço popular. É uma forma de devolver para o povo aquilo que ele mesmo nos deu na história da música brasileira”.
Esta será a primeira vez que Yamandú divide o palco com as parafernálias acústicas do carioca Marcos Suzano. Com Armandinho, a parceria já é consolidada. “Minha relação com Armandinho vem desde quando ele tocava com o Raphael (Rabello). Primeiro eu era só admirador, agora temos um duo juntos e tocamos de vez em quando”, conta. Com Paulo Moura (também ex-parceiro de Rabello), o diálogo ficou ainda mais profundo na gravação do CD El Negro, Del Branco, lançado no ano passado pela Biscoito Fino, com composições de ambos.
admiraçãoTodos eles têm uma aproximação estreita com a música de Jobim em suas respectivas linguagens. A começar por Paulo Moura, que lançou em 2000 o álbum Paulo Moura Visita Gershwin & Jobim, e Armandinho (gravou em 97 o Samba do Avião, de Tom). Em Yamandú, fica implícita a influência. “Jobim influenciou todo mundo”, resume. “Eu o admiro pela figura que foi e pela inteligência em conduzir sua música, sem limitá-la ao movimento da bossa nova”.
A homenagem a Jobim pelo quarteto recém-formado é uma experiência inusitada, como define Yamandú. “Afinal, são quatro gerações, de quatro culturas diferentes. Daí, tocando juntos, cada um colocará suas peculiaridades para chegar à mesma coisa”. O repertório do show contempla as grandiosas Garota de Ipanema, Samba do Avião, Águas de Março, Chega de Saudade, Samba de Uma Nota Só, Desafinado, Corcovado, Wave, Chovendo na Roseira, Passarim e Radamés.
Até o início do próximo mês, o quarteto levará a turnê para mais sete capitais: Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis e Fortaleza. A agenda incluirá, no segundo semestre deste ano, shows na França e no Festival de Música Sagrada de Los Angeles, nos Estados Unidos.