Uma notícia difundida nos últimos dois anos deixaram desamparadas as mulheres que usam hormônios sexuais para restabelecer o equilíbrio desfeito com a menopausa, quando os ovários param de funcionar. Os resultados inesperados de dois dos mais importantes estudos sobre a saúde da mulher, dos quais participaram quase 30 mil voluntárias saudáveis, puseram em dúvida a eficiência da terapia hormonal, principalmente no que diz respeito à prevenção de doenças cardiovasculares.
Realizados pelos Instituto Nacional de Saúde (NIH, na sigla em inglês), o maior centro de pesquisas médicas dos Estados Unidos, ambos os ensaios clínicos foram encerrados antes do previsto.
O primeiro a ser interrompido tratou as voluntárias com doses diárias de estrogênios e progesterona e indicou: o uso prolongado desses hormônios, para repor os que deixam de ser produzidos pelos ovários, pode gerar mais prejuízos que benefícios à saúde. Já o tratamento apenas com estrogênios, avaliado no segundo experimento, não mostrou ação preventiva contra doenças cardiovasculares.
A sensação de traição atingiu em especial as candidatas a usuárias desse tratamento, que somam meio bilhão de mulheres no mundo, cerca de 14 milhões no Brasil.
insegurança Se, por um lado, as informações divulgadas aumentaram a insegurança ante a angustiante escolha – tomar ou não os hormônios? –, por outro, tornaram mais claro o papel da terapia hormonal nessa etapa de transição na vida da mulher, em que o organismo sofre alterações comparáveis apenas às do início da idade fértil, marcado pela primeira menstruação.
Hoje se sabe: a terapia hormonal é indicada para tratar os desagradáveis sintomas da menopausa, mas não para prevenir doenças cardiovasculares e mentais, como se acreditava. “Utilizada com precaução, a terapia hormonal continua segura”, afirma Edmund Chada Baracat, ginecologista da Universidade Federal de São Paulo e presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
Embora a controvérsia pareça estar só no começo, a previsão é que em breve sejam divulgados documentos que deverão orientar a ação dos ginecologistas com respeito à terapia hormonal. Em síntese, a tendência é confirmar: a terapia hormonal é importante e funciona sim. Mas em casos específicos, com a finalidade de amenizar os sintomas da menopausa, e não para proteger contra doenças crônicas.
manual No Brasil, a Febrasgo pretende lançar um manual com recomendações médicas sobre o uso dos hormônios sexuais femininos no período que antecede e compreende a menopausa – o climatério, quando os níveis de estrogênios e progesterona no sangue começam a diminuir e oscilam bastante.
Segundo Baracat, o documento não descarta a terapia hormonal. Em vez disso, adota critérios mais rigorosos para a indicação desse tratamento. Há uma orientação geral: os ginecologistas devem analisar, caso a caso, a necessidade e a segurança dessa terapia antes de recomendá-la.
A decisão deve ser tomada em conjunto com as pacientes, comparando as vantagens aos riscos do uso desses hormônios, que, segundo evidências científicas, ajudam a prevenir a osteoporose – o enfraquecimento dos ossos, acelerado após a menopausa – e a amenizar as alterações nos órgãos genitais. A diminuição dos hormônios femininos reduz a lubrificação natural da vagina e causa a atrofia dos músculos desse órgão, motivo de dores durante as relações sexuais.