Espremidos entre o Big Brother e o Jornal da Globo, os capítulos de Mad Maria estão cada vez mais curtos. Parece estratégia da emissora para esconder a produção e o desinteresse do público: a audiência tem se mantido morna, com cerca de 25 pontos e 49% de participação no share (total de TVs ligadas). Mad Maria, que estreou no dia 31 de janeiro, com promessa de revolucionar o uso de novas tecnologias na TV e terá seu último capítulo no dia 25, acabou se transformando em folhetim à Terra Nostra, em que não falta nem a Giuliana – Ana Paula Arósio faz uma mistura da sofrida italiana com a espanhola Consuelo.
Sem saber como convencer o telespectador do drama dos trabalhadores da ferrovia Madeira-Mamoré no início do século passado, a Globo aposta no que sabe fazer de melhor para estimular a minissérie: romance. O médico Finnegan (Fábio Assunção) está vivendo uma tórrida paixão com Giuliana (ops, Consuelo). O ministro J. Castro (Antonio Fagundes), por sua vez, chora seu romance com Luísa (Priscila Fantin) entre tapas, beijos e traições com Farqhar (Tony Ramos) que, sem camisa, talvez não colabore muito com o número de TVs ligadas.
Aí fica a pergunta: para que tanto esforço em gravar no meio do mato, entre mutucas e pernilongos, cobras e lagartos? Para que contratar especialista em efeitos especiais com estágio em Hollywood? Para que recuperar parte da ferrovia em Rondônia, apostar no local como pólo turístico, enfim, esse arraial todo, se no fim das contas o que dá certo mesmo é um bom beijo na boca? A Globo sabe fazer novela, sabe fazer minissérie, às vezes erra na mão, como está errando, e não é esse o caso.
A questão é o bafafá que envolve Mad Maria: a recuperação do patrimônio histórico, os milhões que o governador de Rondônia, Ivo Cassol, investiu no Estado para facilitar as gravações, as disputas de direitos autorais sobre a história da ferrovia. Afinal, os bastidores da produção acabaram se tornando muito mais interessantes do que a própria minissérie, que esperou uma década para ser desengavetada, já escrita por Benedito Ruy Barbosa. Não é de impressionar que as pessoas estejam loucas para ler os três livros lançados sobre o assunto. A minissérie não é suficiente, as cenas são tão fakes que não causam emoção. E por que tanto gelo seco, tanta sujeira limpa, tanta fuga ensaiada?
Mad Maria é um drama que desperta a curiosidade, é uma vergonha histórica, é um sem-número de explicações sobre o caso que valem filmes, minisséries e livros. É uma tarja preta na história do Brasil. Quando a TV se apropria de uma história dessas e desperta o interesse do público com um beijo na boca, é porque não cumpriu seu papel. Quando o próprio autor do livro, Márcio Souza, alega não poder ver o programa porque está ocupado no horário, quem vai sentar-se nessa poltrona?