Aqueles que imaginam que as regras mais rígidas sobre participação de modelos nos dois principais eventos de moda do país, o Fashion Rio e o São Paulo Fashion Week, terão forte impacto sobre o padrão estético vigente podem estar iludidos.
Desde a morte por anorexia da modelo paulista Ana Carolina Reston, 21 anos, no ano passado, a mídia e a indústria da moda vêm discutindo sua possível contribuição para a doença que afeta cerca de 1,7 milhão de brasileiros, especialmente meninas entre 11 e 14 anos.
Na tentativa de coibir excessos, os dois eventos não contarão neste mês com modelos menores de 16 anos e exigirão atestados médicos garantindo a saúde das profissionais.
Mas isso não necessariamente vai se traduzir em gente mais cheinha nas passarelas ou na criação de novos modelos de beleza nos editorais de moda daqui para a frente.
"As pessoas não podem se iludir e achar que, devido às novas regras, os estilistas vão colocar meninas com tipos mais curvilíneos nas passarelas para uma coleção de inverno", afirma Pati Madureira, booker da agência de modelos Ford. "Não dá para uma menina com 93, 94 centímetros de quadril desfilar as roupas sequinhas de inverno".
Ela acredita que, apesar das novas regulamentações, não haverá um padrão de corpo "diferente do que se viu até agora" no mundo da moda. "As meninas que não puderem desfilar vão continuar fazendo editoriais", lembra ela.
Para Maria Prata, editora da revista Vogue, a iniciativa pelo menos serve para uma reflexão.
"É uma chacoalhada na indústria toda. Todo mundo parou para pensar. Tomara que as agências tenham um cuidado mais especial com as meninas, que são muito crianças e precisam ser mais monitoradas e menos largadas pelas agências", diz.
Mesmo diante da perda financeira de dezenas de milhares de reais que a ausência nesses desfiles de alguns grandes nomes, como a da modelo Camila Finn, causou para a Ford, Pati vê a idéia como positiva para a vida das modelos.
"Acho saudável barrar as meninas menores de 16 anos, porque, por causa dos compromissos e responsabilidades, elas acabam perdendo uma fase incrível da vida", diz. Al ém disso, segundo ela, "é um alívio" para as agências não ter que cuidar de modelos tão jovens "como pai e mãe".
Eloysa Simão, diretora do Fashion Rio, que começa no domingo, acredita que os problemas que afligem as modelos fazem parte de um contexto amplo de fatores.
"Acho importante as pessoas se conscientizaram do perigo das doenças causadas pelos distúrbios comportamentais da sociedade em que nós vivemos. Anorexia é uma delas, assim como síndrome do pânico e muitas outras", observa.
Maria Prata diz que "a gente pensa muito nesses assuntos e nos perguntamos se temos algo a ver com isso (os problemas que levam à anorexia)".
"Talvez nem seja consciente, mas a gente olha uma modelo linda e magra na passarela e acha lindo".
Segundo ela, as novas regras são "uma iniciativa bacana, uma resposta a um acontecimento, mas não acho que vai mudar os editoriais das revistas, porque há um padrão difícil de ser mexido".
A discussão também corre o mundo, e o Brasil não é o primeiro a mudar as regras do jogo. Em setembro, o governo espanhol foi o primeiro a tomar iniciativa, proibindo na principal semana de moda do país meninas ultramagras. No mês passado, foi a vez de Milão, onde as casas de moda barraram de seus desfiles modelos com índice de massa corporal (IMC) abaixo do normal.