Valorizar a cultura popular do nordeste brasileiro, realizando uma arte erudita, é um dos objetivos do mais recente trabalho do Ballet Stagium, que vai dançar o Movimento Armorial, hoje e amanhã, às 21h, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional.
O mineiro Décio Otero é o responsável pela coreografia e pela trilha sonora, sendo diretora do espetáculo a húngara Marika Gidali. Os dois são fundadores do Ballet Stagium e montaram a companhia em 1971. Desde então, trabalham com o mesmo objetivo. O cenário e figurinos são de Márcio Tadeu, colaborador do vasto repertório do Stagium.
Idealizado por Ariano Suassuna, o Movimento Armorial surgiu em 1970 em Recife, com a realização de um concerto da Orquestra Armorial de Câmara e de uma exposição de artes plásticas. Ao longo desse período, o movimento se expandiu e, em 1976, apresentava propostas na arquitetura, cinema, dança, música, teatro, tapeçaria, cerâmica, literatura e pintura.
“A arte armorial brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com a literatura de cordel e a música de viola, rabeca”, costuma dizer Suassuna. É o que vem de encontro à linha trabalhada pelo balé, acentua Marika: “O repertório do Stagium é totalmente imbuído de brasilidade”, diz a bailarina.
Dezoito bailarinos interpretam, ao som de viola, temas da literatura de cordel, como a história de amor e morte de Fernando e Isaura, o baile medieval e a lenda do pavão misterioso. “Eu tinha o projeto de fazer uma coreografia como essa há muitos anos, mas não poderia fazer isso sem antes pesquisar bastante”, afirma Otero.
Considerada uma arte erudita, a dança do Stagium é uma revisão crítica da nossa sociedade, que busca resgatar um movimento tão importante e desconhecido pelo público. O teatro de bonecos nordestino também é fonte de inspiração para o Movimento, que procura, além da dramaturgia, um modo brasileiro de encenação e representação.
É este trabalho, organizado de forma a compor a colcha de retalhos do Brasil, que o Stagium tem levado às principais cidades brasileiras, como Florianópolis, João Pessoa, Maceió, Recife, entre outros centros.