O que é a adolescência senão um período de indagações, medos, taras, descobertas de si mesmo e do mundo? Um mundo, aliás, que, muitas vezes, é marcado por frustrações e que parece não estar nem aí para os dramas e a incansável busca por respostas desse ser (o adolescente) apaixonado pela vida, pela inconseqüência, pelo perigo, pelo amor, pelo sexo. Não importa, de qualquer forma, onde viva esse adolescente nesse mundo globalizado. Se no Brasil, na Europa, na África, na Ásia, na América Latina.
E são justamente as aventuras e desventuras dos adolescentes latino-americanos o principal tema explorado em Amor em Tom Maior, coletânea de contos de autores da região que resolveram falar sobre esse ser que luta contra as espinhas no rosto, que não sabe o que quer da vida, que se assusta com o crescimento dos seios e a chegada da primeira menstruação, que se entrega ao prazer e ao sexo sem medidas, que sonha com a chegada da primeira vez, que é confuso por natureza.
Assim, escritores da Costa Rica, México, Peru, Bolívia, Argentina, Equador, Cuba e de tantos outros países de língua espanhola – o português do Brasil também se faz presente – narram histórias inéditas de contemplação, crítica ou, simplesmente, distanciamento das muitas provações enfrentadas por quem habita essa faixa etária.
Aos poucos, conto a conto, o leitor acaba percebendo que as tramas se tornam universais, apesar de cada autor escrever com os próprios maneirismos e seguindo milenares e regionais tradições. Ora, afinal, não há imagem mais recorrente quando vislumbra-se a adolescência do que a satisfação em apreciar o nascimento dos próprios pêlos pubianos ou dar a cara a tapa em busca do autoconhecimento. Sem medo de ser feliz.
BrasileiroO carioca Jorge Miguel Marinho, 56 anos, por exemplo, abusa do lirismo em Eros de Luto ao contar a história de Augusto, um rapaz sem perspectivas – pelo menos não até se apaixonar por uma mulher mais vivida – e que faz de tudo para aparecer, até arriscar dar cabo da própria vida. Já o argentino Mempo Giardinelli, 56, extrapola no romantismo à moda antiga ao preferir narrar no conto Jeannie Miller, a trágica história de uma adolescente que engravida e é desprezada pelo namorado. Para piorar, ele conta a meio mundo que fez gato e sapato dela (há algo mais comum que isso, a busca pela auto-afirmação do adolescente imaturo – redundância? – que se enche de glórias junto à turma?).
Acidez E o boliviano Edmundo Páz-Soldán, 36, traz a público uma amostra da mais ácida literatura em A Porta Fechada. Com elegância, conta a história de um parricídio cometido por uma jovem que era abusada sexualmente do pai. Noite após noite. Há ainda, entre tantos, digno de nota o cubano Senel Paz, 53. Com um conto que mistura Che, revolução, a primeira vez do menino e da menina, prostíbulos e a urgência implacável do amor, ele discorre sobre o pecado original em Não Diga que a Ama. O conselho, aliás, deveria ser seguido por todos que tentam autoproteger-se das agruras típicas dos relacionamentos amorosos-sexuais. Não o é, porém.
Há outros exemplos de boa literatura nessa coletânea que reúne 15 renomados escritores de 12 nações latino-americanas e que foi elaborada pelo Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e Caribe (Cerlalc), grupo apoiado pela Unesco. Histórias que devem ser conhecidas aos poucos, de preferência com alguém do lado.