Três décadas depois do assassinato do estudante de Geologia da USP Alexandre Vanucci Leme, morto pela repressão política nos anos 70, vem à tona a fita gravada durante um show improvisado de Gilberto Gil, em protesto, no campus da universidade. O resultado é que, essa fita encontrada há dois meses, vai virar um CD e já tem a aprovação do cantor e Ministro da Cultura. Mais de duas mil pessoas testemunharam um show que aconteceu na Escola Politécnica da USP. Gil, então recém-chegado do exílio, tocou e falou durante três horas. Contestou suas composições antigas, mostrou os caminhos da música brasileira e sugeriu a criação de uma nova mentalidade para combater o regime. “Soube que encontraram a fita. Estou entusiasmado. Lembro-me bem desse show. Sei que é uma referência. Havia uma sintonia enorme entre nós. Eram pessoas muito envolvidas, fui me solidarizar”, diz o ministro da Cultura. Anos antes, ao ser vaiado com Alegria, Alegria no Festival da Record de 1967, Caetano gritava, ao lado de Gil, sob vaias: “Se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos. Vocês estão por fora! Que juventude é essa?!”. “O setor musical era compulsoriamente engajado. Mas havia uma visão muito maniqueísta, a ditadura era o eixo do mal. Eu sempre estive no centro e, nesse show, me desloquei, fui injusto com minhas canções, criticando-as. Eu sabia do meu papel de referência da resistência, mas não assumia a responsabilidade”, diz Gilberto Gil. O jornalista Caio Túlio Costa prepara um livro sobre o período: “Era uma nova esquerda que nascia. Durante anos, havia uma versão resumida do show em cassete, e as pessoas se reuniam para escutá-la. Sempre se referiam ao show do Gil como um dos momentos emblemáticos, porque a cultura ganhava uma nova importância”. Ary Perez era estudante da Politécnica e estava no show, gravado num equipamento de rolo Akai. Foram Perez e o músico Paulo Tatit que encontraram a fita perdida. “Fiquei com a fita depois do show. O equipamento era do Grupo de Teatro da Poli, do qual eu fazia parte. Tentei dá-la algumas vezes para profissionais da música, as pessoas aceitavam e depois devolviam, porque não tinham o aparelho. Encontrei-a numa caixa”, lembra Perez.