A Globo pode até disfarçar, dizer que não é bem assim, mas a novela América virou um nostálgico e descarado exercício de memória. No instante em que Silvio Santos tem a humildade de recorrer ao velho arquivo da Manchete e reapresentar Xica da Silva na faixa nobre do seu SBT – ou que a Record, sem qualquer cerimônia ou escrúpulo, vai ao fundo do baú e apela a um antigo sucesso do passado, A Escrava Isaura, para reinaugurar os seus trabalhos no setor de novelas –, a Globo se vê envolvida com estranhas e, até agora, inexplicáveis semelhanças. As imagens e as músicas da América são as mesmas de Pantanal. Só que essa é a primeira das muitas “coincidências”. O personagem do Murilo Benício, a todo instante, tem contatos com o espírito do pai, iguaizinhos aos que Marcos Winter também tinha na velha história do Benedito Ruy Barbosa, quando ele via o avô, o falecido “Velho do Rio”. O filho da viúva tem o mesmo medo de montar, para desgosto do pai, que o Juventino tinha. E os dois, Winter e Gagliasso, ontem e hoje, entraram na história revelando problemas com o sexo oposto. Não bastasse tudo isso, América também tem pequenas doses de Ana Raio e Zé Trovão, outra novela da Manchete, ambas apresentando os rodeios como seu pano de fundo. E não é que o tocador de berrante é o mesmo? Um pouco mais velho, claro. Será o Benedito ou são apenas simples coincidências, provocadas pela presença de Jayme Monjardim, numa obra do acaso, diretor das três novelas em questão?