Foi nos jornais que Marcos Frota buscou inspiração para compor Jatobá, o personagem cego que vive na novela América. Tem feito sucesso, mostrando um perfil misto de temperamento forte e fragilidade. “Jatobá luta muito com ele mesmo, chega a ser agressivo, e preciso me esforçar para achar o tom certo”, conta o ator. “Uma das minhas inspirações é o Romário. Veja só: um cara todo marrento que agora tem uma filha com Síndrome de Down (a pequena Ivy, de quase dois meses) e se tornou uma pessoa mais humilde”, analisa o ator.
Com Jatobá, Marcos vive o quarto deficiente físico de sua carreira. O primeiro – seu grande salto na carreira – foi o escritor Marcelo Rubens Paiva, que ficou paraplégico depois de um acidente na piscina: Marcos Frota o interpretou no espetáculo teatral Feliz Ano Velho, em 1983. Depois disso já interpretou um surdo, o Tomás da novela Sexo dos Anjos (1989) e, em seguida veio o inesquecível Tonho da Lua, na segunda versão de Mulheres de Areia (1993). Coincidência? Para o ator, todos os seus papéis sempre tiveram ligação emocional, um algo a mais no plano espiritual.
Jatobá, diz Frota, veio no momento certo, pois ele alcançou a maturidade e o sossego necessário para encarnar um deficiente visual. “Deixei de ser o Marcos, fiquei quieto no meu canto, li muito e permiti que o personagem entrasse em mim”, descreve o ator, que para viver cada um de seus papéis utilizou uma técnica diferente. “Para o Tonho, eu ficava brincando com os fonemas, exercitando a maneira como ele falaria e meu filho Tainã, que tinha três anos na época (hoje ele tem 14), entrava na onda. Agora, com o Jatobá, brinco com o Davi (de 6 anos, seu filho com Carolina Dieckmann) com venda nos olhos”.
Mas o ator preferiu não entrar em minúcias de composição para Jatobá: “Não me preocupei muito com a questão do olhar do cego. Quero que as pessoas vejam o personagem como um todo e não fiquem se preocupando para onde ele está olhando”. Tem dado certo, conforme ele pode avaliar pela popularidade demonstrada nas ruas.
“Ando na rua e me chamam de Jatobá, perguntam como vai o Sr. Quartz (cão-guia que acompanha o personagem), é uma delícia”, comemora. Mas Marcos não atribui o sucesso só a seu talento. “O que está agradando é o diálogo que está sendo aberto à sociedade. Apareceu um personagem com síndrome de Down no seriado Carga Pesada, tem a questão da célula-tronco sendo discutida no Congresso. Acho importante que esses assuntos entrem em pauta”.