Um escritor publica, aos 32 anos, um romance que o torna milionário e famoso no mundo inteiro. Em vez de aproveitar o sucesso, ele se muda para uma cidadezinha do interior, nunca dá entrevistas e passa todos os seus dias, durante meio século, escondido em casa e escrevendo outros livros que jamais pretende publicar. Estranho, não? Mais esquisito ainda é saber que esse autor, o americano J.D. Salinger, foi “acusado”, entre outras coisas, de ter sido o inspirador do movimento hippie, do culto moderno às religiões orientais e até do assassinato de John Lennon.
A obra de Salinger finalmente está sendo publicada numa edição decente no Brasil graças à Editora do Autor, que lançou numa só caixa três dos seus quatro livros: Nove Histórias, Franny & Zooey e O Apanhador no Campo de Centeio. Este último, editado em 1951 e responsável pelo sucesso de Salinger, foi um dos romances mais influentes do século XX. É a história do adolescente Holden Caulfield, que critica tudo e todos enquanto circula por Nova York, com medo de voltar para casa e encarar os pais ricos depois de ter sido expulso da escola. Holden se tornou um símbolo da “rebeldia juvenil”, mas o seu caso é mais de solidão do que de revolta. Por trás da aparente crítica à sociedade, há o desespero de alguém que simplesmente não consegue se enturmar, embora tente ficar amigo de todos – freiras, garotas de programa, taxistas, professores, colegas de escola e porteiros de hotel.
Salinger estabelece uma cumplicidade com o leitor poucas vezes atingida na história da literatura. Há pessoas que entram em depressão quando chegam à última página, pois não sabem mais viver sem Holden.
O assassino de John Lennon, Mark Chapman, tinha um exemplar de O Apanhador no bolso quando atirou no ex-Beatle. Depois de matá-lo, sentou na calçada e começou a folhear o livro. Chapman teria enxergado, nas entrelinhas, alguma espécie de mensagem contra Lennon (embora ele tenha sido escrito antes do surgimento dos Beatles). O curioso é que Salinger realmente detestava Lennon, como revelou uma ex-namorada dele, Joyce Maynard, no rancoroso (mas interessante) Abandonada no Campo de Centeio. Os outros volumes da coleção, Nove Histórias e Franny & Zooey, são menos conhecidos, mas também merecem atenção especial. Franny & Zooey é a história da família Glass, formada por meninos geniais que não conseguem se adaptar ao mundo medíocre. Esse trabalho serviu de inspiração para o recente filme Os Excêntricos Tannenbaum. Os personagens da família Glass são os preferidos de Salinger – que, segundo a lenda, ainda escreve obsessivamente sobre eles, mas não publica nada (por revolta contra os critérios pouco artísticos das editoras). Nove Histórias é uma coletânea de contos veiculados originalmente, nos anos 60, pela New Yorker e outras revistas. Em alguns capítulos, como o excelente Um Dia Perfeito para o Peixe-Banana, aparecem personagens da família Glass. O quarto livro de Salinger, Carpinteiros, teve uma introdução lançada no Brasil pela Companhia das Letras, e também se concentra nos irmãos Glass. Há um ano, circulou o boato de que seria publicada a continuação das histórias dessa família. Mas a edição foi cancelada.