O rock argentino passa por um inédito momento de efervescência. É no meio chamado independente que a atual produção musical do país encontra sua face mais vibrante. Selos, produtores e, claro, público, têm se firmado ao redor dos novos artistas.
"No momento, Buenos Aires é um lugar muito bom para se fazer e desfrutar música", acredita o quase veterano Sebastián Rubin, que, após fazer história com sua ex-banda Grand Prix, com a qual chegou a lançar dois discos na Espanha, agora segue em carreira solo. "A cena indie é riquíssima e está mais variada do que nunca". Produtor de bandas como a festejada Mataplantas e líder da Valle de Muñecas, Manza Esain faz coro: "Além de variada, a cena está se renovando continuamente."
Variedade é algo que realmente não falta na nova geração argentina. A lista de revelações é extensa, e abrange desde o som pesado da Los Natas até o neotropicalismo do Doris, passando pelos experimentos eletrônicos orquestrados do Brian Storming, o garage rock festeiro do Tandooris, o indie rock psicodélico do Bicicletas e a surf music do Tormentos.
"O rock mainstream está estancado há anos e não dá sinais de que vá melhorar. O mais interessante está no underground", afirma Peter, vocalista do Los Alamos, um dos nomes mais fortes desta nova cena, que faz canções com letras em inglês. Os brasileiros têm a chance de conhecer o "narco-country" da banda pelo EP Emboscada, lançado recentemente via Maldita Sea!, selo que em breve deve trazer ao País trabalhos de outros novos artistas argentinos, entre eles o El Mato a un Policia Motorizado, além de Los Natas e Fantasmagoria.
"Para quem conhece rock, não soamos como nada de novo, mas para a Argentina somos como extraterrestres. Não falamos de nacionalismo, nem de futebol, nem do Maradona", diz Peter, resumindo um sentimento geral. Para Santiago Motorizado, vocalista e baixista do El Matoà, a internet tem papel fundamental na atual pluralidade da cena. "Ela deu a toda uma geração a possibilidade de ter acesso a muita música, de todos os lugares e de todas as épocas", explica. "Disso tudo só pode surgir algo bom".
Histórico
O rock nunca foi o melhor produto de exportação da Argentina. Os artistas, pelo menos os da "velha guarda", geralmente levam-se a sério demais. Usam roupas escuras, são cabeludos e cheios de atitude. As letras transmitem uma revolta ingênua e anacrônica, como se ainda vivêssemos nos anos 70 e o punk fosse uma transgressora novidade.
Uma das exceções neste meio foi a banda Los Fabulosos Cadillacs, que, por quase duas décadas, arejou e trouxe referências diferentes ao rock argentino, fazendo misturas originais em seu divertido repertório de ska-rock popular.
No começo de 2000, os Cadillacs se dispersaram, embora sem nunca oficializar o fim. A boa notícia é que isso liberou seu vocalista, Gabriel Julio Capello, o Vicentico, para embarcar em trabalho solo e transformar-se no mais criativo músico pop do país.
Vicentico, de 42 anos, acaba de lançar Los Pájaros (ainda sem previsão para sair no Brasil), seu terceiro álbum, em que radicaliza suas características como solista. A música é para dançar; as letras, para fazer chorar.
"As canções são nostálgicas porque minha maior fonte de inspiração são minha infância e minhas lembranças", disse Vicentico. "Quanto ao fato de serem dançantes, trata-se de uma tentativa de juntar uma tradição argentina a outros ritmos latino-americanos, para os quais em geral somos muito fechados."
De fato, suas músicas soam como uma mistura da murga – a batucada carnavalesca portenha – com ritmos caribenhos, como a salsa, e com o nosso tão conhecido forró. Como não poderia deixar de ser, a evocação lamuriosa e os temas do tango – as saudades do "arrabal", os corações partidos, a imagem da mãe, a frieza de mulheres inalcançáveis – estão em quase todo CD.
O Brasil aparece sorrateiramente em várias faixas de Los Pájaros. Na canção Las Hojas, há um quê de lamento sertanejo; em Felicidad, de bossa nova; e Si me Dejan é uma balada Roberto Carlos puro-sangue. "Cresci numa casa de intelectuais, freqüentada por gente de cinema, de teatro. Roberto Carlos ali era tido como um cantor brega. Mas as moças que faziam a limpeza ouviam. Eu grudava no rádio delas. Adoro o repertório dele, da Jovem Guarda e da fase mais comercial", conta.
Por pouco, inclusive, o álbum não traz uma versão de Proposta em espanhol, que Vicentico chegou a gravar, mas que ficou fora porque decidiu, de última hora, que ele só teria canções de sua autoria.
Vicentico vê uma relação pouco explorada entre a música que se faz no Rio da Prata e a brasileira, principalmente do sul do país. "Ali há uma tradição popular, com uma percussão muito característica, e melodias que carregam algo ao mesmo tempo argentino, uruguaio e gaúcho". Descobrir o que chama de "rincões musicais" e trazê-los para seu trabalho é uma das coisas que Vicentico mais gosta de fazer. "É por causa disso que eu espero que o mundo se globalize menos", avalia. "Gosto de descobrir que existe um canto que eu não conheço, e que alguém pode vir a descobrir meu bairro e o que se faz nele."
Agora, um retorno à ativa dos Fabulosos Cadillacs parece se anunciar no horizonte. A banda já se reuniu no ano passado para gravar um tributo ao veterano Andrés Calamaro. "É possível, nós nunca falamos que os Cadillacs tinham terminado," diz.
De fato, os Cadillacs antes se diluíram do que morreram. Em 1999, La Marcha del Golazo Solitário ainda trazia a banda na mesma boa forma. Na seqüência, veio a dupla de discos ao vivo: Hola e Chau. Depois, o silêncio que dura até hoje, mas que vem sendo interrompido aqui e ali por rumores de encontros, reuniões ou ensaios às escondidas.