Tendo em seu bojo desde vítimas contumazes a algozes, o movimento feminista acompanhou reviravoltas desde os anos 30 e, em 1967, em meio à revolução sexual, ganhou seu tom mais radical, quando a ativista Valerie Solanas lançou o livro Scum Manifesto – Uma Proposta para a Destruição do Sexo Masculino. Com um discurso selvagem, de tom até messiânico, a obra responsabilizava os homens por todos os males do mundo e propunha atitudes radicais. Tudo isso poderia ter ficado apenas no universo da sátira, não tivesse a autora, um ano depois, tentado assassinar o ídolo pop Andy Wahrol. “Eu considero isso um ato moral”, disse, na época. “Imoral foi eu ter errado. Deveria ter treinado mais”.
O tom proposto por Valeria Solanas nesse clássico do feminismo norteou a curadoria da mostra Como Eliminar os Homens da Face da Terra, que o Centro Cultural Banco do Brasil realiza para celebrar o Dia Internacional da Mulher, comemorado na data de hoje. Durante duas semanas, vão se revezar, no Cinema do CCBB, títulos que têm a mulher como protagonista e o homem como coadjuvante ou mesmo vítima de heroínas muitas vezes cruéis. Uma forma bem-humorada de rever os conceitos. Como Eliminar os Homens da Face da Terra acontece simultaneamente em Brasília e no Rio de Janeiro. Aqui, o evento poderá ser visto até o dia 20.
Esta é a segunda mostra do Projeto 8 de Março, que tem por objetivo privilegiar o trabalho das mulheres no cinema, nas mais diversas competências. No ano passado, o CCBB ofereceu um elenco de filmes dirigidos por mulheres com a mostra Mulheres em Apuros. Desta vez, elas atuam como protagonistas e não necessariamente realizadoras. No total, serão 15 filmes, produzidos desde a década de 40 e até os dias de hoje.
“A mostra é uma proposta bem-humorada para homenagear o Dia Internacional da Mulher: os homens vão sofrer na tela, mas se divertir na platéia”, afirma o diretor do CCBB Brasília, Marcelo Mendonça, em referência ao fato de as mulheres protagonizarem – e os homens sofrerem em papéis secundários – os filmes selecionados para este projeto.
Scum Manifesto, o livro de Valerie Solanas, é até agora a maior inspiração para o nome da mostra, que tem por curadoras Suzy Capó e Beth Sá Freire. Elas levantaram temas relacionados a características atribuídas ao texto por críticos culturais. “A obra de Solanas cruza as fronteiras entre o discurso político, a sátira desenfreada e o lirismo messiânico”, afirmam. “Quase 40 anos após o lançamento do livro, sua leitura surpreende não só pela absurda proposta de extermínio do sexo masculino, mas pela estranha justaposição dos tons adotados pela autora – sem emoção, calculista e elegante”.
Embora tenha se tornado um clássico do feminismo, Scum Manifesto (Scum é abreviação de Society for Cutting Up Men, criada por Solanas) é uma obra incômoda até para as parcelas mais radicais do movimento, por não fazer concessões de nenhuma espécie. As palavras de Valerie Solanas já foram comparadas – pelo tom profano de loucura inspirada – a outros “malditos” como Celine e Sade. O livro é apresentado pela revista Newsweek como “um discurso de intensidade fanática, selvagemente perspicaz e divertido”.
Os filmes selecionados para Como Eliminar os Homens da Face da Terra não são necessariamente comédias, mas todos eles brincam, de alguma maneira, com o humor – mesmo que na versão de humor negro. “Nossa opção foi propor uma mostra de cinema humorada, corrosiva, provocativa e com um pé bem firme na questão política relacionada ao papel da mulher”, explicam Suzy Capó e Beth Sá Freire. “Lidaremos mais com o imaginário, brincando com os termos do tal manifesto de Valerie Solanas”.