Muito antes dos DJs, eram os conjuntos de baile os responsáveis pelos amassos juvenis e talvez o mais notório deles tenha sido The Fevers, surgido em plena efervecência da jovem guarda e que se mantém vivo, 40 anos depois. Para comemorar a data, estão sendo lançados em CD os mais significativos álbuns do grupo, recheados de faixas extras extraídas de compactos (singles) e aproveitando-se o fato de que a produção dos Fevers era tão grande que não cabia num grupo só.
Sim, por trás de sucessos dos Golden Boys, Eduardo Araújo, Erasmo Carlos e até Wilson Simonal estava a máquina de hits dos Fevers que, não contentes, atuavam também com outros nomes como Supersonics, Band It, Vacations e Década Explosiva, entre outros. Ao todo, estão sendo relançados 14 LPs em 9 CDs, numerados de 0 a 8, já que o primeiro não pode ser creditado exatamente a eles, já que atuam como coadjuvantes ou com o pseudônimo de Supersonics.
A série foi organizada pelo pesquisador Marcelo Fróes que, entre outras proezas, produziu a primeira caixa com raridades de Gilberto Gil; se os fãs têm algo a lamentar é a não inclusão das primeiras gravações do grupo, feitas pela Phillips (hoje Universal), que não autorizou a reprodução. Em compensação, há mais de 30 faixas bônus espalhadas pelos discos.
Os Fevers surgiram como centenas de outros grupos, com garotos da periferia das grandes cidades sonhando em se tornarem ídolos do rock. Inicialmente se apresentando como Fenders, mudaram o nome quando descobriram que estavam plagiando o nome de uma guitarra e buscaram inspiração numa canção de Elvis Presley, o ídolo de todos. Os Fevers reinaram nos bailes, mas também desenvolveram uma prolífica história de gravações a partir daí – e numa velocidade espantosa; raramente demoravam mais de dois dias no estúdio para gravar um álbum inteiro, acompanharam meio mundo – incluindo artistas de outras gravadoras – e fizeram história na parte mais desprezada da música brasileira.
Nos encartes dos discos há uma série de histórias pitorescas da carreira do grupo, incluindo a surpresa que eles tiveram quando, em São Paulo, viram o nome que escolheram, Fevers, na capa do disco gravado para ser o segundo volume dos Supersonics. O disco trazia o grande sucesso Juanita Banana, uma versão. Aliás, há uma profusão de versões entre as gravações dos Fevers, desde canções dos Beatles ao tema do seriado Batman, demonstrando o oportunismo musical do grupo.
Mas a série mostra também que os Fevers foram um dos pioneiros a perscrutar o mercado latino, com o lançamento de um disco em espanhol (o primeiro de três), escudados pelo amigo Roberto Livi, um cantor de pouco sucesso na Jovem Guarda, que se destacou mais como versionista e empresário. As canções próprias não foram muitas – pode-se destacar Ninguém vive Sem Amor, de Almir, a voz do grupo – mas os Fevers gravaram músicas de amigos como Sá, Rodrix e Guarabyra e o então iniciante Celsinho Blues Boy.