Toca o telefone na Total Filmes. Em geral, desde 6 de janeiro, data de estréia de Se eu Fosse Você, sempre que se ouve um trim-trim na sede da produtora carioca, fundada em 1998, em Botafogo, no Rio de Janeiro, é sinal de notícia boa chegando. A maioria delas reiterando que a comédia de Daniel Filho é o maior sucesso de bilheteria deste verão no Brasil. Além de ser o segundo acerto comercial da empresa na temporada de 40 graus à sombra no Rio: Sexo, Amor & Traição, de Jorge Fernando, foi o primeiro a pôr a Total no planisfério dos blockbusters nacionais. Mas, neste caso, além de otimista, a boa nova foi bíblica.
Uma amiga dos produtores Iafa Britz, Walkiria Barbosa, Vilma Lustosa e Marcos Didonet foi à missa em Belo Horizonte. A homilia do padre: “Irmãos, quem estiver em crise no casamento, pensando até em separação, antes de tomar qualquer decisão, deve ir ao cinema e assistir ao filme de Tony Ramos e Glória Pires”. Mídia mais divina, impossível.
“Os padres nos abençoaram. Um lá em São Paulo também recomendou o filme aos fiéis”, diz Iafa, com o sorrisão de quem acabou de receber o boletim semanal de venda de ingressos do longa-metragem.
No último fim de semana, Se eu Fosse Você cravou 2.791.946 de espectadores, número que faz dele a maior renda de 2006, derrotando seu maior concorrente Crônicas de Nárnia, visto até aqui por 2.713.407 brasileiros.
“Dependendo da renda que o filme obtiver no Carnaval, ele pode chegar a 3,5 milhões de espectadores”, estima Paulo Sérgio Almeida, cineasta e diretor da Filme B, empresa que vistoria o mercado de cinema no Brasil. “Esse sucesso qualifica a Total como uma produtora de perfil mercadológico das mais importantes no País.”
Para a Total Filmes, ainda há um marco a mais a ser comemorado: os 315.520 ingressos vendidos por Se eu Fosse Você” em pré-estréias e em seus três primeiros dias em cartaz qualificaram o longa de Daniel Filho como a quarta maior bilheteria de estréia no Brasil na última década.
“O mais incrível é ver, nas sessões, o quanto esse público aplaude o trabalho de Tony e Glória”, diz Vilma. Daí a felicidade da Total.
“É surpreendente ainda encontrar o filme em primeiro lugar, após quase dois meses em cartaz. Isso só vem provar a força do boca a boca na carreira de Se eu Fosse Você”, diz Didonet, o único gaúcho em time de mulheres cariocas, lembrando que cada projeto da empresa é feito contando com pitacos de distribuidores e exibidores. “Sempre nos aproximamos muito do cinema em suas várias camadas, para aproveitar a experiência que cada setor tem. Cada filme que se produz sempre tem muitos interstícios.”
“O que o Marcos quer dizer com interstícios é que somos uma empresa de produtores e, portanto, vemos todos os outros elos da cadeia do audiovisual como parceiros”, corta Walkiria. “A opinião de quem nos distribui e de quem nos exibe é importante para o desempenho dos filmes.”
desastresImportante com certeza é. Mas na carreira da Total nem sempre ouvir o outro evitou desastres. Desde que Didonet, Walkiria, Iafa e Vilma se reuniram, há oito anos, para participar da produção anglo-espanhola Garota do Rio (2001), de Christopher Monger, eles cometeram escorregões. Caso de Viva Sapato! (2004), de Luiz Carlos Lacerda — 5.597 espectadores — e de Mais uma Vez Amor” (2005), de Rosane Svartmann — 227.779 ingressos vendidos, apesar da forte campanha de marketing.
Melhor sorte teve Avassaladoras, de Mara Mourão, considerado o longa brasileiro número um da Total. O filme não chegou a ser um êxito popular com 284.260 espectadores. Mas seu desempenho foi significativo em um ano em que a média de 2 milhões de pagantes ainda não havia se firmado como critério de sucesso.
“Até hoje há uma comunidade de Avassaladoras no Orkut”, diz Vilma.
O carisma do longa inspirou um seriado recém-lançado na TV Record, com Virginia Cavendish, Márcio Garcia, Gisele Itié, Débora Lamm, Vanessa Lóes e Eduardo Galvão. A série vai até junho. E já promete ter uma segunda temporada.
“Avassaladoras — A Série vai durar 22 semanas, com episódios de 40 minutos. O que significa quase um telefilme por semana”, diz Walkiria, que tem uma lista de projetos para desenvolver até 2007.
Um deles, Muito Gelo e Dois Dedos d’Água”, o novo filme de Daniel Filho, com Paloma Duarte, Mariana Ximenes e Aílton Graça, estréia em agosto. Ainda em 2006, Jorge Fernando assume o set de Esperando a Carroça, refilmagem de um sucesso argentino, enquanto Wolf Maya debuta na direção de cinema com a comédia conjugal Sexo com Amor, remake de um longa chileno. Outro estreante a ser produzido pela Total é o galã Márcio Garcia, que vai dirigir O Golpe. No terreno cineteatral, os produtores querem verter o sucesso O Divã, com Lília Cabral, em filme.
Há ainda na lista de Walkiria e companhia os filmes Amor de Deus — uma co-produção Brasil-Espanha a ser dirigida pelo medalhão Carlos Saura — e Corazón na Boca — com o argentino Marcelo Piñeyro, de Plata Quemada. Tudo isso a ser feito com a bênção dos mesmos clérigos que hoje bendizem Se eu Fosse Você. E com os senões da crítica à grife Total.
“A crítica decorre do fato de trabalharmos filmes de gênero, como a comédia romântica ou a de costumes, não da qualidade dos filmes”, diz Iafa.
“Queremos, sim, fazer blockbusters de sucesso”, diz Walkiria. “É com eles que a gente leva público ao cinema.”