Conseguirá Daniel Radcliffe escapar da maldição do ator-mirim de um personagem só? Será sua personalidade capaz de se dissociar do eterno bruxinho Harry Potter, vivido por ele durante tantos anos no cinema?
O histórico não está a seu favor (vide os casos dos atores-mirins Macaulay Culkin e Haley Joel Osment etc), mas o astro inglês vem tentando, como neste longa Um Verão para Toda a Vida, que estréia hoje nas salas da cidade.
Aqui, Radcliffe interpreta Maps, um órfão (como Potter, mas sem varinha mágica) que vive em um convento católico no outback australiano, na década de 1960 – sim, o filme foi rodado na Austrália. Tanto é que, inicialmente seria Freddie Highmore o intérprete do personagem Maps. Entretanto sua avó adoeceu, o que o impediu de deixar a Inglaterra para rodar na Austrália.
Sendo um dos mais velhos do lugar, Maps sabe que suas chances de adoção são reduzidas, mas não parece se preocupar muito com isso, já que tem amigos no local, principalmente o trio que, como ele, faz aniversário em dezembro (daí o título original, December Boys, que para variar, foi pessimamente traduzido em português para Um Verão para Toda a Vida).
Num clima de Sessão da Tarde, os quatro amigos ganham de presente de aniversário uma viagem para a costa australiana, onde vão seguir todos os passos básicos do romance de formação: viverão aventuras, descobrirão o sexo oposto, passarão por conflitos pessoais e, ao fim, amadurecidos pela breve temporada de verão, reforçarão sua amizade.
Clichês
Dirigido por Rod Hardy, especialista em seriados de TV, Um Verão para Toda a Vida amontoa clichês visuais e de roteiro, com referências variadas desde Conta Comigo a O Corcel Negro.
Seus bons momentos ficam por conta do garoto Misty, narrador e personagem principal, cujo catolicismo exacerbado o leva a ter constantemente visões e epifanias.
Quanto a Radcliffe, seu personagem tem uma cena de sexo com a qual Harry Potter deve apenas sonhar. No entanto, nada que se equipare ao que o ator fez na peça Equus, que chocou a Inglaterra, quando de sua estréia neste ano. Na peça, Radcliffe é também um jovem adolescente que cega seis cavalos e do psiquiatra que investiga estes crimes inomináveis, confrontando os mistérios da paixão e loucura sexual.
Longe disso, Radcliffe no cinema é esquemático demais e interpreta com as mesmas caras, bocas e pitis do jovem bruxo. Por fim, sua atuação ainda é completamente ofuscada pela do novato Lee Cormie (Misty).