O filme Ensaio sobre a Cegueira, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus) e adaptado do romance homônimo do escritor português José Saramago, estréia nos Estados Unidos nesta sexta-feira, em meio a protestos promovidos por uma associação de cegos.
Fiel à trama do livro em que se inspira, a produção cinematográfica transporta o espectador para um mundo repentinamente dominado pelos instintos mais primários de seus habitantes.
Tudo começa quando uma misteriosa doença que deixa as pessoas cegas se alastra por um país, atingindo toda a população, com exceção da mulher do médico que trata do primeiro homem a manifestar a desordem.
Tal situação põe em interdição a moral e as normas de comportamento atuais, retrato que o filme pinta com bastante crueza, mostrando a baixeza e a degradação que dominaria a sociedade se o homem perdesse um dos seus principais sentidos.
Embora fale de tudo isso sem exibicionismos narrativos, o longa de Meirelles traz algumas cenas que podem consideradas incômodas aos olhos de um público acostumado à correção política dos roteiros de Hollywood.
“(O filme) coloca questões sobre a evolução humana. Representa-nos de forma crítica, mas não aponta uma direção específica (a ser seguida)”, disse Meirelles a respeito, acrescentando que a produção vai mais longe que o livro no que diz respeito aos dilemas éticos.
“É uma história que deve gerar perguntas, não respostas”, esclareceu o diretor do filme, indicado este ano à Palma de Ouro do Festival de Cannes e protagonizado por Alice Braga (Eu Sou a Lenda), Julianne Moore (Magnólia), Mark Ruffalo (De Repente 30) e Gael García Bernal (Diários de Motocicleta).
Nos EUA, Blindness (título original) já enfrenta críticas mesmo antes de sua chegada às telas.
Isso porque, para Marc Maurer, presidente da Federação Nacional de Cegos (NFB, na sigla em inglês), com sede em Maryland, “o filme apresenta os cegos como monstros”.
“E acho que isso é uma mentira”, declarou à rede de TV CNN, à qual disse ainda que o filme do diretor brasileiro não contribui em nada para a integração dos cegos na sociedade.
Com base nesses argumentos, a federação anunciou que vai protestar nos 75 cinemas dos EUA em que Ensaio sobre a Cegueira estreará. E, segundo Maurer, os manifestantes levarão a tiracolo cartazes com frases como “Eu não sou um ator, mas interpreto um cego na vida real”.
“Os cegos aparecem no filme como incompetentes, sujos, viciados e depravados. São incapazes de fazer as coisas mais simples, como se vestir, se lavar e encontrar o banheiro. A verdade é que as pessoas cegas normalmente fazem as mesmas coisas que as que podem ver”, disse o presidente da NFB em um comunicado.
“Mostrar os cegos nas telas americanas um pouco melhor do que animais reforçará temores infundados e os estereótipos do grande público sobre a cegueira”, acrescentou Maurer, para quem o longa ajudará a aumentar a taxa de desemprego entre os cegos, que atualmente é de 70%.
Para a NFB, também é um “escândalo” que a distribuidora Miramax, subsidiária do grupo Walt Disney, tenha aceitado retratar os cegos desta forma, e que “inclusive explique que se trata de uma alegoria ou uma observação social”.
Em resposta, a Miramax limitou-se a comentar que fica “triste” com a decisão tomada pela NFB, e que a produção é “uma parábola sobre o triunfo do espírito humano quando a civilização vem abaixo”.
Ensaio sobre a Cegueira foi um projeto que passou pelas mesas de vários produtores desde que Saramago – Nobel de Literatura em 1998 – publicou o livro homônimo. Porém, demorou até o escritor português aceitar a proposta para adaptação de seu romance.
“Sempre resisti, porque é um livro violento sobre degradação social e não queria que caísse em mãos equivocadas”, disse Saramago numa entrevista concedida em 2007.
Segundo o roteirista e ator Don McKellar, o escritor queria evitar que sua trama se transformasse em um filme de zumbis.
Um dos maiores desafios para Meirelles foi, exatamente, conseguir que o elenco do filme atuasse como se realmente tivesse perdido a visão, para o que todos participaram de “oficinas de cegueira”.
Cada ator passou horas em total imersão para se acostumar a perceber o que se sente quando não se vê. Depois, todos experimentaram a perda parcial da visibilidade, até que começaram a atuar com os olhos abertos como se fossem cegos.
“Após ler o roteiro, senti que Blindness era uma história grande e que precisávamos fazê-la”, confessou Julianne Moore, cujo personagem é o único que não é atingido pela cegueira e que contempla a decadência de todo o resto da sociedade.
Por sua vez, o mexicano Gael García Bernal, fã declarado da obra de Saramago e máximo representante das falhas de caráter que o homem pode incorrer em situações-limite, acha que, apesar das aparências, o filme fala “de esperança, porque só que pode nos salvar somos nós mesmos”.