O universo de David Cronenberg está tão pouco estranho que o espectador acostumado aos seus jogos de intenções e elipses de roteiros pode se surpreender diante de Senhores do Crime, seu novo e mais uma vez acertado thriller de violência e mistério, que estréia hoje no circuito comercial.
Para quem viu – e gostou – dos pouco ortodoxos Crash – Estranhos Prazeres (1996) e eXistenZ (1999), Senhores do Crime é “filé com fritas”, para não dizer café-com-leite. Spider – Desafie Sua Mente, de 2002, apontou novos caminhos desse seu cinema, do qual muitos gostam, poucos odeiam e uma boa parcela não sabe muito bem o que achar.
Um período de jejum (três anos) e a maturidade de Cronenberg lhe permitiram fazer Marcas da Violência, talvez seu thriller de medidas mais equilibradas, porém ainda surpreendente. E é com este filme anterior que Senhores do Crime melhor se corresponde – até mesmo pela escolha de Viggo Mortensen (o Aragorn, de Senhor dos Anéis), para o papel principal. Há um clima fantástico e personagens caricatos, como se narrado em uma história em quadrinhos (Marcas da Violência, aliás, é adaptada de uma HQ de John Wagner), e a linha dramática é regida, sobretudo, pelo tom rubro do sangue (sempre terá alguém derramando o suficiente).
Tráfico sexual
O tema do filme é poderoso, apesar de não universalizar a discussão em torno do tráfico de adolescentes sonhadoras do Leste Europeu, enganadas por organizações criminosas para tornarem-se escravas sexuais em lugares como Londres (no caso) – daí a liga para o título original, Eastern Promises (Promessas do Leste). Numa dessas promessas, a jovem Tatiana, de 14 anos, cai nas mãos da enfermeira Anna (Naomi Watts), jorrando litros de sangue, com um bebê no útero e pouca força para viver.
Ela morre, o bebê sobrevive. Anna fica com o diário da moça, escrito em algum dialeto russo. Anna é descendente de russos, vive melancólica sob o teto da mãe e não tolera o tio (um ex-funcionário da KGB), beberrão e racista (ela namorava um rapaz negro).
Obcecada por conhecer o paradeiro da família de Tatiana e, então, entregar o recém-nascido a quem é de direito, Anna topa com o clã Vory V Zakone, máfia russa. O simpático patriarca, Seymour, dono de um restaurante de comidas típicas, se oferece para traduzir o diário que Anna carrega, sob os olhares desconfiados do filho Kirill (do excelente Vincent Cassell) e do motorista Nikholai (papel pelo qual Viggo Mortensen foi indicado ao Oscar deste ano).
Daí, Cornenberg retorce a trama e muda o foco. Seria, até então, uma história linear. E o espectador quase acredita que o é. Mas, de uma hora para outra, o personagem de Nikholai assume a narrativa-guia do filme e protagonzia os melhores (e mais violentos) frames da película.
Afinal, é nessa desconstrução que Senhores do Crime mostra sua relevância. Não reinventa o cinema, nem nada. Porém, propõe um suspense tórrido de conteúdo sociopolítico denso. E, se ele não fez nem uma coisa nem outra, o efeito final deu certo e isso pode ser testemunhado na tela.