À exceção do duo uruguaio Danteinferno, os shows de Beto Só, Azevedo Silva e Marcelo Camelo carimbaram a melancolia no primeiro dia do festival “El mapa de todos”, no Espaço Brasil Telecom.
O brasiliense Beto Só abriu o festival. Com pouco público – o show começou às 20h30 –, ele tocou músicas de seus dois discos, “Lançando sinais” e “Dias mais tranqüilos”. O indie-pop de Beto, com influências de Elliott Smith e Nick Cave, agradou ao público que ainda chegava ao Espaço Brasil Telecom.
Para Beto, é importante que festivais como o “El mapa” aconteçam para unificar a cultura ibero-americana. “Temos uma certa ignorância do que é a produção em festivais vizinhos. Eu mesmo conhecia poucas bandas que vão tocar aqui”, confessa.
Assim que terminou o show de Beto Só (as apresentações se alternavam entre o palco foyer e o palco teatro), o português Azevedo Silva tocava os primeiros acordes de seu violão no teatro. Ele e seu guitarrista, Filipe Grácio, conseguiram lotar o auditório, que acolheu a dupla com entusiasmo. Azevedo tocou músicas longas e arrastadas, com temas como morte e chuva. “Estamos mais perto do Pólo Norte do que o Brasil, somos pessoas frias”, justificou Silva, rindo.
Logo depois, os uruguaios do Danteinferno subiram ao palco foyer. Com uma guitarra, uma bateria e uma gaita, Francisco Pancho e Martín Recto fizeram um rock cru, com músicas que alternavam a calmaria e o grunge. Eles tocaram para um público dividido entre ficar na fila para o show do Marcelo Camelo e assistir a uma banda desconhecida que fazia barulho. Depois da apresentação, Pancho admitiu que existe uma dificuldade de comunicação entre países ibero-americanos no que diz respeito à cultura. “Acho que existe falta de empenho de ambas as partes”, afirmou Pancho, que disse que de música brasileira “só ouvi Maria Bethânia e Chico Buarque”.
Às 22h50, hora em que o Danteinferno deixou o palco, o teatro já estava lotado. Gente em pé, sentada no chão, em cadeiras extras. Estavam todos à espera da atração principal: Marcelo Camelo. Não demorou muito, o músico foi anunciado. Às 23h, o carioca subiu ao palco e tocou os primeiros acordes de “Passeando”. Ovacionado, não cumprimentou os fãs. O que se viu foi um Marcelo submerso no universo de Chico Buarque. Era um Camelo ensimesmado.
A empolgação de “Tudo Passa” passou batida. Mas veio, enfim, com a dançante “Menina bordada”. Acompanhado da banda paulista Hurtmold, Camelo começou a se soltar um pouco mais, arriscando um “boa noite”. Em “Mais tarde”, os velhos tempos de Los Hermanos, quando o coro da platéia abafava Camelo e Amarante, voltaram. “Pode ser até do corpo se entregar mais tarde”, entoavam os fãs.
Marcelo aproveitou o momento e emendou “Janta”, música gravada com sua namorada, Mallu Magalhães. E o público crescia a cada frase. Logo depois veio “Doce Solidão”, um dos hits do disco “Sou”, recém-lançado pelo músico. O baixo tom da voz de Camelo talvez tenha atrapalhado o coro do público, que não conseguia abafar a voz do cantor, o que era normal.
Para relembrar os bons tempos, Marcelo Camelo tocou “Pois é”, música do disco “4”, dos Los Hermanos. E o ápice do show continou, com “Liberdade” e “Morena”, também dos Hermanos. No fim do show, Marcelo e Hurtmold fizeram uma espécie de “jam session”, em que os músicos tocam algo não programado, no improviso. Para muita gente, essa foi a melhor parte do show. Camelo deixou o palco e os paulistas ficaram por um bom tempo fazendo barulho, o que chegou a lembrar a banda escocesa Mogwai. Novamente introspectivo, Camelo voltou para o bis e fechou o show com “Santa Chuva” e a animada “Copacabana”, que não levantou o público.
Depois do show, o baterista do Hurtmold, Maurício Takara, conversou com o clicabrasilia. Ele disse ter ficado impressionado com a proposta do “El mapa”. “Achei muito boa, nós temos um circuito mal esquematizado no Brasil, temos dificuldade dentro do nosso próprio país. Isso serve para mostrar que, se é possível integrar países, é possível integrar estados”, disse. Takara não conhecia as bandas de outros países selecionadas para o festival. Mas apóia a escolha. “Acho válido trazer bandas que não têm a ver com nosso som, é legal ver a curadoria interessada em trazer algo diferente”, afirmou.
Prova da dificuldade de integração entre o Brasil e outros países da América do Sul é que o Hurtmold nunca se apresentou fora do País. “A gente já tocou em Portugal, Espanha, Inglaterra, mas nunca conseguimos tocar na Argentina, algo que sempre tivemos vontade”, reclama Takara.
O Hurtmold completou 10 anos em 2008. Para celebrá-los, os paulistas vão fazer shows nesta sexta, sábado e domingo, no Auditório do Ibirapuera (SP). Os convidados serão Marcelo Camelo, o trompetista americano Rob Mazurek e o saxofonista suíço Thomas Rohrer.
Hoje, o festival segue com shows de Facas Voadoras (MS), banda selecionada através de votação na intenet, dos argentinos do Babasónicos, dos matogrossenses do Macaco Bong e da banda peruana Turbopótamos. As apresentações começam às 20h30. Os ingressos custam R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia).