Não é em qualquer desfile de moda que se vê dois policiais armados na passarela. Modelos adolescentes usavam roupas inspiradas na vida da prisão, mas a guarda era para uma das estilistas na platéia do desfile primavera-verão Codice a Sbarre , realizado no glamuroso clube noturno de Milão Il Gattopardo.
Quatro mulheres detidas em uma prisão em Vercelli, no leste de Milão, desenharam e fizeram a coleção de ousados casacos listrados, shorts e minissaias com um logotipo de código de barras.
Duas das prisioneiras não receberam permissão de participar do desfile por causa da natureza de suas sentenças, cujos detalhes não foram divulgados.
As outras duas, uma nigeriana sorridente e espalhafatosa recentemente libertada após cumprir uma sentença de cinco anos e meio, e uma italiana quieta, se transformaram em estrelas da moda por uma noite enquanto voluntárias apresentavam as roupas na passarela.
"É uma coisa linda e nova para mim, nada assim me aconteceu antes", disse a italiana de 30 anos, uma morena que não quis revelar seu nome para não ser encontrada pela família.
As duas mulheres preferiram não falar sobre os crimes que cometeram; a italiana só disse que estava na prisão "há muito, muito tempo".
A experiência na prisão inspirou claramente sua primeira coleção: as modelos desfilaram pijamas de listras cinza e verde e tops com números de identidade, ao som de David Bowie cantando "We can be heroes just for one day" ("nós podemos ser heróis só por um dia").
"O projeto foi criado para ajudar as mulheres a falarem sobre seus mundos por meio das cores e dos detalhes", disse Maria Ripandelli, uma estilista profissional que trabalhou com as prisioneiras. "Nessa coleção, nada é branco e preto, tudo são sombras".
Ripandelli e sua sócia, Daniela Chiantia, reviraram os arquivos para extrair detalhes de macacões de prisão dos anos 70 e traduzir as idéias das detentas em criações que pudessem ser feitas pelas prisioneiras.
"É sobre comunicar as lembranças, essas lembranças que você tranca em uma caixa, mas que daí você abre e todas saem", acrescentou Ripandelli.
Além das ambições terapêuticas e artísticas, o projeto também teve o objetivo prático de ensinar às mulheres habilidades que elas possam aproveitar assim que deixarem a prisão. As roupas serão vendidas em lojas de toda a Itália e o projeto pode ser ampliado para incluir mais prisões.
"Faz parte da idéia de uma prisão útil," disse Antonino Raineri, diretor da penitenciária de Vercelli, usando uma gravata listrada em verde e cinza que faz parte da coleção Codice a Sbarre.
"Esse projeto significa que as mulheres aprendem alguma coisa, e nós vemos que as que saem da prisão com habilidades e com uma chance de encontrar um trabalho têm menos chances de voltar para trás das grades", disse.