Menu
Promoções

Perversidade é trunfo do corajoso épico <i>300</i>

Arquivo Geral

30/03/2007 0h00

Frank Miller sempre cultivou a quase doentia capacidade de transformar sordidez em arte. Em Os 300 de Esparta (Dark Horse Comics/Devir) – minissérie épica lançada em 1998 e reeditada há dois meses como prenúncio do filme que estréia hoje, sob o título de 300 (como no original em inglês da publicação) –, o quadrinista norte-americano não faz diferente. Recriaria relato histórico único com despudor e franqueza necessários (sanguinolento e quase obsceno), não fosse um chocante predecessor – Calígula, do lascivo Tinto Brass, lançado em 1980.

Miller, a título de informação, foi aquele que fez Batman assumir sua verdadeira vocação de herói sombrio e vingativo em Cavaleiro das Trevas; quem ousou dar gabarito de heroína à descontrolada homicida Elektra; e, principalmente, a mente brilhante que corrompeu o “cinemão” americano e deixou Hollywood de joelhos para promover sua horda de maus-caráteres do submundo de Sin City – A Cidade do Pecado (que virou filme há dois anos, pelas mãos do próprio, em parceria com Robert Rodriguez; e com continuação).

300, o longa-metragem adaptado e dirigido por Zack Snyder (Madrugada dos Mortos e escalado para filmar a HQ Watchmen, do não menos celebrado Alan Moore), captura em proporções mais pudicas – se preferir, menos lúbricas – a essência da novela gráfica do autor. Snyder projeta na tela o heroísmo perverso, provoca os sentimentos sádicos das entranhas do espectador e estampa a ironia em clichês: gritos de guerra como “coragem, glória e honra” saem da boca do protagonista, Rei Leônidas de Esparta (o escocês Gerard Butler, de Querido Frankie e O Fantasma da Ópera), qual fera sedenta por carne fresca.

A inspiração para 300 vem do ano 480 d.C, quando da Batalha das Termópilas. A saber da abundância de informações históricas nas páginas dos quadrinhos, a adaptação cinematográfica opta por omiti-las. Poderiam ser relevantes, mas a trama não depende disso: o enredo investe na figura de Leônidas. Criado para proteger cegamente sua terra, este rebela-se contra o corrupto líder do conselho espartano Theron (Dominic West) e o clero regido por anciãos pervertidos e coléricos que controlam o oráculo.

História
300  não se propõe reconstituir os conflitos bárbaros entre o reino livre de Esparta e o dominador império persa, comandado pelo “deus-rei” Xerxes (encarnado pelo astro brasileiro mais famoso em Hollywood, Rodrigo Santoro), um gigante andrógino, careca e de voz gutural que adorna seus três metros de altura com penduricalhos de ouro e prata.

Se em Sin City Miller optou por levar o jogo de luz e sombras com retoques de cor para as telas, em 300 concede mais liberdade à adaptação. Não é o caso de sacar o bordão “mas o livro (novela gráfica) é sempre melhor”. Pode-se dizer que o filme é igualmente superior – não em termos de inovação, mas em apuro técnico. Permite que o épico corra em velocidade de videoclipe, ativada por trilha sonora roqueira, e abuse do redescoberto recurso do slow motion (como em Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Matrix) para explicitar a ferocidade das resolutas “crianças” (como ele chamava seus guerreiros) de Leônidas, ao fatiar um sem-número de persas. Cabeças decepadas voam em câmera lenta como num balé sádico; o sangue se espalha na tela, fragmentado em grãos homogêneos.

Plástica
A cinematografia é extasiante: contrasta a ternura dos pálidos campos de trigo da cidade rural de Esparta  – e, en passant, neste cenário, mostra a devoção recíproca entre o rei Leônidas e a “esposa-rainha” Gorgo (Lena Headey) – com a terra áspera e cinzenta dos Portões de Fogo. Lá, os dedicados soldados espartanos usam os corpos inanimados dos inimigos como argamassa para erguer suas muralhas e combater o exército numeroso e bestial de Xerxes.

Criaturas fantásticas como orcs e trolls completam o show de bizarrices que inclui o corcunda Efialtes, traidor de Esparta; um carrasco persa obeso e asqueroso com garras de caranguejo; e minotauros harpistas nos bordéis do deus-rei.

Apesar de cruel, 300 é ameno – provavelmente por restrições mercadológicas, que não permitiriam levar todo o despudor dos quadrinhos para a tela. No original, Leônidas é um líder muito mais frio e rigoroso. Nas horas de descanso, seus soldados são submetidos a exercícios de resistência. A ordem é dada uma única vez. Desobediência é morte. E morte é dever.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado