Igor Silveira
Especial para o clicabrasilia.com.br
Vestido de preto e com os cabelos desgrenhados escondidos sob um boné, Ricardo González Ferrero da Silva, 30 anos, é uma dessas figuras folclóricas da cena musical de Brasília. Dona Silvani, mãe de Ricardo, é a única que o chama pelo nome de batismo. Frango, como é popularmente conhecido, é vocalista da banda Galinha Preta, definida por ele como barulhenta e irresponsável de grindcore-caos-lixo. "É podreira mesmo", descreve, em alusão ao grindcore, estilo de metal extremo com elementos de hardcore.
O grupo, no entanto, não garante o sustento de Frango. Como músico, ganha apenas amigos e os dois vale-transportes que cobra por cada DVD da banda, gravado, editado e produzido artesanalmente por ele próprio.
>> Veja o clipe da música "UA", do Galinha Preta
A banda já lançou no underground brasiliense um CD demo com seis músicas, com um total de (pasmem) cinco minutos de duração, além de outras canções gravadas em singles. Nenhum dos trabalhos é vendido comercialmente, porém pode ser baixado no site da banda (http://www.galinhapreta.com/), desativado temporariamente por falta de pagamento. "Mas a gente vai pagar e o site vai voltar a funcionar", garante Frango.
O dinheiro para ajudar nas contas da casa que divide com a mãe e mais dois irmãos no P-Sul, Ceilândia, vem de trabalhos como operador de som e roadie (responsável pela produção e parte técnica do palco) em shows e projetos musicais na cidade. Aliás, Frango é um caso atípico de roadie popstar.
"É que o pessoal me conhece por causa do Galinha Preta e sempre tem alguém que fica gritando meu nome", conta. "Tem uns artistas também que gostam tanto do meu trabalho que fazem questão de me chamar ao palco para agradecer, mas isso é ruim porque roadie bom não pode aparecer", completa.
Como roadie, Frango trabalhou com grandes nomes da música brasileira, como Chico Science, Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos e Hamilton de Holanda, além de bandas locais como Bois de Gerião e Jah Live. Apesar da variedade de ritmos e estilos, Frango diz que só gosta de ouvir hardcore finlandês. "Eu só compro outros discos para usar como sampler nos shows do Galinha", explica.
Folclore
Histórias não faltam sobre os shows de sua banda. Uma vez, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) apareceu para cobrar da produção de uma festa onde o Galinha Preta tocava. Frango disse que o pagamento não era necessário com a justificativa de que as músicas da banda eram folclóricas e, portanto, de domínio público. "Falei que não tinha esse lance de direito autoral; qualquer um podia tocar nossas músicas", diverte-se o vocalista.
Quando perguntado sobre o que mais gosta nos trabalhos como músico, operador de som e roadie, Frango é taxativo na resposta: a energia do público. "A gente fez um show para 40 mil pessoas no Porão do Rock e foi uma coisa absurda", conta. "Quando estou como roadie e o trabalho é bem feito, a gente também sente a vibração da platéia e isso é muito bom", finaliza.