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Peça <i>A Alma Imoral</i> desnuda a platéia com seus ensinamentos

Arquivo Geral

18/01/2008 0h00

A luz do Teatro da Caixa ainda está acesa, os mais atrasados mal se acomodaram e a atriz Clarice Niskier entra na sala, passa anônima pela platéia e sobe ao palco para encenar o monólogo A Alma Imoral, que fica em cartaz até domingo. É neste palco que Clarice vai apresentar ao público um espetáculo corajoso, visceral e profundo.

A peça é baseada no livro homônimo do rabino Nilton Bonder e, tal como uma obra literária, começa com um prólogo no qual Clarice conta como chegou ao livro e os porquês que a levaram a adaptá-lo para o teatro ao lado de Amir Haddad, que assina a supervisão do texto. Ali se descobre que o espetáculo surgiu com uma dúvida religiosa de Clarice, que teve sua condição de “judia-budista” questionada pela espectadora de um programa de televisão. Para a atriz, as religiões se completam e não se opõem.

Desse ponto de partida, a peça vai tocando – por meio de passagens bíblicas, parábolas e alguns clichês que parecem saídos de um livro de auto-ajuda – em pontos cruciais da existência humana, como as dicotomias percebidas entre Deus e ciência,  certo e errado. Sobre esse último, Clarice ensina que há momentos delicados de nossas vidas em que precisamos notar que o errado pode ser o certo e vice-versa. Em outro momento, um dos mais aplaudidos, a peça mostra que “não há tradição sem traição”.

Um tema árduo como este é tratado na peça de maneira informal, mas não muito leve – até porque muitas vezes a atriz fala rápido demais e as pessoas levam tempo para “digerir” as questões levantadas. Clarice dirige-se ao público como se estivesse no comando de uma prazerosa aula. Os alunos têm o direito de interromper e pedir para que ela repita um trecho inteiro da peça, coisa que a atriz faz com maestria e sorriso de satisfação impressionantes, mesmo que o tal trecho tenha sido dito há várias cenas.

A linha de interpretação seguida por Clarice se assemelha à praticada no filme Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, e vai pelo caminho da cumplicidade com o público. Não sabemos se quem está ali é a atriz Clarice Niskier, uma personagem sem nome, o rabino Nilton Bonder ou mesmo se é qualquer um de nós, a quem muitas daquelas questões tocam, emocionam, divertem, aborrecem, entediam e despertam sentimentos e reações.

Clarice se entrega ao espetáculo de corpo e – sem trocadilhos – alma. Ela está ali por inteiro, completamente nua ou vestida apenas com um véu preto transparente, sempre ouvindo e falando com o emocional, com o sentimento, como ela mesma frisa no prólogo. Dona da cena, a intérprete ganhou por este trabalho o Prêmio Shell de melhor atriz em 2006, ano que A Alma Imoral estreou.

Passados cerca de 50 minutos, o público já aplaudiu Clarice diversas vezes em cena aberta e ouve sua despedida. Mas não se engane: o aplauso final não marca o término de A Alma Imoral, mas, sim, o seu começo. É dentro de cada um que sai da platéia que a peça recomeça, pois todos já tiveram suas almas imoralmente invadidas pelas palavras de uma “judia-budista”.

A Alma Imoral – Até domingo. Sexta e sábado (21h); domingo (20h). Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). No Teatro da Caixa (Setor Bancário Sul, Quadra 4). Evento não recomendado para menores de 18 anos. Informações: 3206-6456.

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