O teatro brasileiro está cada vez mais descentralizado do eixo Rio-São Paulo, pelo menos no que se refere ao local de estréias das produções. Assim é com Um Dia, no Verão, texto de Jon Fosse que tem sua estréia nacional aqui em Brasília. O espetáculo cumpre temporada no CCBB até 22 de julho e tem a marca da diretora Monique Gardenberg (dos impactantes Os Sete Afluentes do Rio Ota e Baque) e elenco formado por Renata Sorrah, Sílvia Buarque, Gabriel
Braga Nunes, Fernando Eiras, Dadá Maia e Bia Junqueira.
Em Um Dia, no Verão Renata e Sílvia dividem o palco vivendo a mesma mulher, em tempos diferentes. Quando jovem, ela perdeu o marido, que saiu para uma viagem de barco e nunca voltou. Assim como num drama inspirado sebastinismo (sentimento dos portugueses de que o rei Sebastião ia voltar mesmo depois de morto em uma batalha), esta mulher vive esperando pela volta do marido, que não chega. Ela conversa com suas memórias, com o mar e com ela mesma, sempre em busca de uma resposta.
“Fui surpreendida pela escrita de Fosse, minimalista, poética, única”, afirma Monique, que foi chamada para dirigir o espetáculo por Renata Sorrah e Sílvia Buarque. “A peça pode ser vista como um espetáculo sobre a solidão, mas é também sobre a dificuldade de comunicação entre as pessoas – uma outra espécie de solidão. O Jon Fosse tenta chamar atenção para isto, para a dificuldade de se compreender o outro e, ao mesmo tempo, de ser compreendido”, completa a diretora.
Sempre à procura de um desafio novo, Monique conta que montar Um Dia, no Verão foi difícil, mas tem valido a pena. “Descobrir a linguagem mais acertada para se contar esta história foi o grande desafio”, avalia, acrescentando que o público estará diante de “uma história onde pouca coisa acontece, ou pelo menos, o que acontece, é anunciado já na primeira cena. Mas acho que escolhemos um bom caminho”.
Nesta caminhada, Monique esbarrou no caráter multidisciplinar do teatro e foi beber nas artes plásticas e no cinema, onde já tem experiência como diretora de filmes como Benjamim, Ó Paí Ó e Jenipapo, entre outros. “O teatro pode se apropriar de todas as artes, ele permite isso. Mas a fonte de tudo é sempre o texto. Ele é o ditador absoluto. Se o texto me inspirar, me conduzir para um diálogo com outras artes, vou incorporando essas disciplinas porque elas irão servir ao texto”, diz Monique, que destaca nesta peça o diálogo com a pintura pela plasticidade das cenas.
Mesmo estando em sua terceira peça e tendo dois sucessos nos palcos em seu currículo, Monique conta que é mesmo no set de filmagens que se sente mais à vontade. “Esta é a minha terceira peça. Me sinto uma estreante ainda. O cinema é minha vocação original, onde possuo um domínio, uma intimidade que estou apenas construindo no teatro”, afirma ela, que já dirigiu dois curtas-metragens, três longas e vários clipes de cantores nacionais.
Um Dia, No Verão – De 6 a 22 de julho, sexta, às 21h; sábado às 19h e às 21h; e domingo, às 20h, no Centro Cultural Banco do Brasil (Setor de Clubes Sul, Trecho 2). Ingressos a R$ 15 (inteira), à venda na bilheteria do teatro. Informações: 3310-7087.