Há 15 anos morreu o Rei do Baião, Luiz Gonzaga. O mestre se foi, mas imortalizou um estilo musical que, hoje, um dia após seu aniversário de morte (em 2 de agosto de 1989), é celebrado no fole da sanfona e no gargarejo das flautas da antológica Banda de Pífanos de Caruaru. O grupo – surgido há exatos 80 anos, antes mesmo de Gonzagão – inaugura o projeto Forró de Cabo a Rabo, que narra a história do gênero desde os tocadores de pife do sertão alagoano ao moderno xote do compositor Xangai.
Até o dia 31 deste mês, em todas as terças-feiras, a série leva ao Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) 13 representantes de diferentes momentos da vida longa do forró. A programação começa hoje, em sessões às 13h e 21h, com o show Lá no Meu Pé-de-serra – As Origens do Forró, que traz a Brasília a música instrumental de Seu Nelson da Rabeca, o som retrô do grupo Xaxados e Perdidos e o conjunto patriarca do forró pé-de-serra, a Banda de Pífanos de Caruaru. Nascida em 1924, no berço de uma humilde família alagoana, a banda começou com os irmãos Manoel e Benedito Biano. O conhecimento passou de pai para filho e já está na quarta geração, liderada por Sebastião Biano, o caçula dos irmãos fundadores, que nasceu no ano da formação do grupo. Gilberto Biano, filho de Benedito, falou ao Jornal de Brasília sobre a influência de Gonzagão, forró universitário e um pouco da história do grupo – o mais antigo de música brasileira ainda em atividade.
GonzagãoGilberto, aos 64 anos, acompanhou Luiz Gonzaga em sua época de ouro. “Ele tinha uma amizade muito grande com a gente. Luiz fazia o pé-de-serra autêntico, era legítimo. Deixou muita saudade”, recorda o músico. Crítico e defensor da música brasileira de raiz, Gilberto despreza o subgênero do forró universitário. “É uma coisa bem diferente do que é o verdadeiro forró. O universitário mudou o balanço. Virou uma dança feito o balé. No pé-de-serra a gente agarra mesmo a mulher para dançar”, brinca.
Durante mais de 30 anos, a Banda de Pífanos era um diamente bruto escondido entre feiras e bailes do sertão de Caruaru. Só na década de 50, o conjunto ganhou merecido destaque nas rádios e se mudou para São Paulo. Na capital paulista, o grupo foi acolhido por Caetano Veloso e Gilberto Gil, com quem gravou Pipoca Moderna, no disco Expresso 2222, de Gil, em 1972. A partir de então, o bastão da família Biano continuou a passar de geração para geração, com uma variedade musical que vai desde o baião de Luiz Gonzaga e Sivuca às cantigas de roda, cirandas e folclore típicos da região de Caruaru. “Vamos levando até quando Deus quiser”, sublinha Gilberto.
O programa de hoje se completa com a apresentação do trio Xaxados e Perdidos e Seu Nelson da Rabeca, violinista alagoano, de 58 anos, que resume em sua rabeca toda a diversidade da música rural do Nordeste brasileiro. O Xaxados, por sua vez, se consolida como um dos poucos novos conjuntos de forró que não aderiu à moda universitária e preza pela tradicional formação do pé-de-serra, com sanfona de oito baixos, zabumba e triângulo.