Personagens de Hollywood devem estar traumatizados com literatura. Depois de Will Farrell desenvolver uma paranóia na comédia Mais Estranho que a Ficção, chega a vez de Jim Carrey enlouquecer no suspense Número 23, que estréia hoje nos cinemas com a direção do megaprodutor Joel Schumacher (Por um Fio).
Carrey é Walter Sparrow, um pacato funcionário do serviço de controle de animal (uma espécie de carrocinha para todo tipo de bicho) que vive se queixando da mesmice de sua vida. No dia de seu aniversário, Walter é atacado por um cachorro e se atrasa para um encontro com a esposa, Aghata (Virginia Madsen, de Sideways), que o espera em uma biblioteca.
Quando chega, ela está lendo Número 23, um livro apresentado como um "romance de obsessão". Mal sabe Walter que este será algoz da pasmaceira de sua vida. A trama do filme começa a se desenvolver neste ponto e o que parecia uma comédia romântica vira um suspense daqueles de deixar o espectador sem pistas certas do mirabolante e nada crível final.
O livro mostra um personagem paranóico com o número 23. Também interpretado por Jim Carrey, o homem vê o número em todos os lugares, faz operações matemáticas complicadas e ligações improváveis para dar asas à sua loucura. O problema é que Walter se identifica cada vez mais com o personagem e acaba mudando toda a sua vida em função do romance. A paranóia transcende a trama: este é o 23º filme de Schumacher e a estréia do filme no Brasil é (curiosamente) no dia 23.
Jim Carrey mostra em Número 23 que se sai bem quando se afasta das caretas que marcam sua comédia, assim como no muito superior Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Jim dá a Walter uma interpretação correta e se destaca ainda mais quando vive o personagem do livro, muito mais sombrio e complexo.