Altos índices de audiência costumam ser a senha para a manutenção de uma atração na tevê brasileira. Mas esse raciocínio não vale para o diretor de núcleo da Globo Guel Arraes. O fim de Os Normais deixa isso bem claro. Com A Vingança da C.D.F., que marcou o retorno dos episódios inéditos, por exemplo, o seriado registrou 22 pontos de média, dentro de um padrão que vem desde a temporada do ano passado. Portanto, não é por falta de público nem de anunciantes que o programa dará lugar a Sexo Frágil, de João Falcão, com estréia prevista para 17 de outubro.
Na verdade, tanto Guel Arraes quanto os roteiristas Fernanda Young e Alexandre Machado perceberam o esgotamento criativo da fórmula e, como o próprio diretor já declarou, preferiram que Os Normais saísse de cena enquanto está “por cima”. Aliás, este tipo de decisão tornou-se um hábito na trajetória de Guel na tevê. Na década de 80, o seriado juvenil Armação Ilimitada e o humorístico TV Pirata foram eliminados da grade de programação da Globo sem que houvesse sinais de desgaste junto ao público – e até hoje despertam o saudosismo das gerações que os acompanharam. Mais recentemente, A Comédia da Vida Privada teve destino idêntico ao dos dois humorísticos.
Quanto à natureza, Os Normais incorporou características das comédias de situação – como as marcações de fala bem-direcionadas e a estrutura em esquetes. Mas o humorístico encontrou sua grande virtude na caracterização de tipos, aproveitando por isso várias participações especiais, como a de Fernanda Rodrigues, recentemente. Apostou-se num texto – de Alexandre Machado e Fernanda Young – que tenta se aproximar de forma mais realista das falas e costumes de grupos sociais urbanos de classe média. Rui (Luiz Fernando Guimarães) é um sujeito bem-vestido, que “não rouba nem mata”, mas que sonega gorjetas em restaurantes e promove manobras baixas de sedução. Sua psicologia, como a da instável noiva Vani, interpretada por Fernanda Torres, não é definível segundo a lógica dos estereótipos, do bonzinho ou do malvado.
Os Normais tem o mérito de idealizar menos as coisas. É uma sátira leve, mas que fala de uma mentalidade contemporânea, de gente que se guia por necessidades imediatas de consumo, que expõe sem culpa o próprio individualismo e que não está interessada nas razões políticas ou morais desse estado de coisas. Isso aparece nas referências a temas como sexo, adultério e preconceito, que são tratados de forma mais crua do que o habitual na tevê, mas nunca primariamente.