Cantoras gordinhas não são novidade na ópera. Mas o Covent Garden, de Londres, acaba de confirmar que dispensou a soprano norte-americana Deborah Voigt de uma produção de Ariadne em Naxos, de Strauss, justamente por causa de seu peso, dando nova vida a uma discussão recente: a adequação física de cantores na era do vídeo e do DVD.
“Uma cantora magra seria mais indicada para o papel”, afirmou o porta-voz do teatro, Christopher Millard. “Tenho quadris largos e isso, aparentemente, é um problema para o Covent Garden”, respondeu a soprano, que fora convidada a participar da montagem há cinco anos. Segundo Peter Katona, diretor de elenco do teatro, “os detalhes da produção ainda não estavam definidos”.
No mês passado, ao se definir que a produção da ópera de Strauss, a presença de Deborah Voigt tornou-se um problema. “Normalmente, Ariadne é apresentada em uma ilha grega estilizada, com cantores usando roupas que lembram togas, mas queríamos mostrá-la de modo mais moderno, com vestidos de gala”, disse.
Katona disse que o problema não é apenas o peso de Deborah Voigt – a principal Ariadne em atividade e uma das mais interessantes intérpretes de obras de Strauss e Wagner. Segundo ele, na hora de trocar a soprano e contratar sua substituta (a desconhecida e mais magra Anne Schwanewilms) foi levada em conta também a desenvoltura no palco. “Nos dias de hoje, parece que a decisão de um produtor vale mais que os cantores”, disse, em resposta, um dos agentes da cantora, Michael Benchetrit.
Katona toca em ponto delicado da ópera atual. Sua resistência às gordinhas se insere em processo antigo, fruto do advento do vídeo e, mais tarde, do DVD – a imagem ganhou importância muito grande e, com ela, a necessidade de rever os tipos de interpretação. Em outras palavras, o famoso modo stand and deliver (“pára, olha para o público e solta a voz”) não serve mais.
De um lado, é a adequação da ópera ao ritmo mais dinâmico que as imagens – na televisão, no cinema – ganharam nos últimos anos. De outro, a mudança significa um outro tipo de aproximação ao repertório operístico e da própria percepção do público: não se trata mais apenas de belas vozes, mas da capacidade de os cantores convencerem o público também como atores e atrizes.