Soldado americano interpretado por Tom Cruise em O Último Samurai (em cartaz nos cinemas da cidade) existiu de verdade: era um instrutor francês de artilharia, o capitão Jules Brunet, cuja história nada fica a dever à ficção de Hollywood. Como Nathan Algren, o herói do filme de Edward Zwick, Brunet era um militar contratado para modernizar o exército japonês no século 19, na época da Restauração Meiji.
Assim como Algren, Brunet combateu as novas tropas do imperador em um Japão marcado pela guerra civil e pelas mudanças de alianças. E, como ele, saiu da aventura são e salvo, depois de um sangrento combate por honra de seus irmãos de armas samurais, cuja causa estava condenada pela modernização.
E o que é ainda mais incrível, Brunet fundou uma efêmera “república autônoma” em Hakodate, último reduto dos partidários do xogum Yoshinobu Tokugawa, esmagados pelas forças imperiais.
Praticamente desconhecido, Brunet foi, contudo, um personagem fora do comum, brilhante egresso da escola politécnica de Paris, magnífico soldado e também talentoso aquarelista. Antes de ser enviado ao Japão, havia participado, junto com os soldados de Maximiliano, na expedição no México que resultou desastrosa para as tropas francesas.
Promovido a capitão em 1867, com menos de 30 anos de idade, fez parte da primeira missão militar francesa no Japão. A pedido do xogum, essa missão formou sete regimentos de infantaria, um batalhão de cavalaria e quatro de artilharia. No total, dez mil homens.
Por sua parte, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos respaldavam na época o “partido hostil aos interesses franceses”, instruindo tropas do imperador Meiji, assinala o próprio Brunet. Quando, vencido, o xogum Tokugawa cedeu o poder ao imperador, no final de 1867, a missão francesa já não tinha razão de existir. Oficialmente, a França era neutra.
Alguns membros da missão decidiram ficar na resistência Bakugun, os últimos samurais fiéis ao xogum. Desertor de fato, Brunet escreveu a Napoleão II “decidido a morrer” e a “servir a causa francesa neste país”.