Um jornalista pode e deve se envolver com seus personagens. Não por questões humanitárias, mas para extrair deles o melhor: depoimentos, revelações, sentimentos. Pois foi só depois de três anos de visitas à penitenciária, que o jornalista e escritor Truman Capote finalmente ouviu, do assassino Perry Smith, o relato sobre a matança dos Clutters, família de quatro pessoas executadas por ele e pelo comparsa Dick Hickcock, na noite de 14 de novembro de 1959, em Holcomb, Kansas (EUA).
As entrevistas e todo o desenrolar do caso, até a pena de morte por enforcamento, cinco anos depois, são tema de Capote, filme que estréia hoje em todo o País. Daqui a nove dias, em cinco de março, o longa concorre a cinco Oscars: melhores filme, diretor (Bennett Miller), ator (Philip Seymour Hoffman), atriz coadjuvante (Catherine Keener) e roteiro adaptado (Dan Futterman).
O primeiro livro de Capote, publicado aos 24 anos, já mostrava o interesse do autor pelo lado marginal da vida. Com o conto Other Voices, Other Rooms, ele esfrega na cara da América puritana a história de um garoto envolvido com um travesti. Isso em 1948. Com o último livro, A Sangue Frio, sobre o crime do Kansas, editado em 1966, ele dá nova linguagem à reportagem policial, na trilha do jornalismo literário.
Nascido em Nova Orleans, em 30 de setembro de 1924, Truman Streckfus Persons foi um garoto negligenciado pela mãe. Passou a infância trancado em quartos de hotéis, enquanto ela saía com o namorado. Acabou criado por tias idosas no Alabama.
Quando trabalhava na revista The New Yorker, foi cobrir o assassinato dos Clutters. Sem usar gravador ou bloco de notas. “Eu consigo me lembrar de 94% das conversas”, dizia ele, que, à noite, fazia o relato do dia em grandes cadernos.
“O que eu mais gosto é ficar sozinho estudando o roteiro, tendo idéias e pesquisando”, conta o ator Philip Seymour Hoffman, de 38 anos, que fez um trabalho vocal surpreendente para interpretar Capote. Já participou de 40 produções para cinema e TV (Perfume de Mulher, Boogie Nights, o Talentoso Mr. Ripley). “O sucesso não é o que te faz feliz. O sucesso é fazer o que te faz feliz”, percebe Phil.
Mesmo atormentado pelo destino dos personagens reais do livro, Truman Capote também encontrava a felicidade, quando se identificava com outro ser humano, o assassino Perry: “Parece que fomos criados na mesma casa. Só que ele saiu pela porta dos fundos e eu, pela da frente”.