Sai a musa entra a vovó. Sai o Momo obeso, entra um rei sarado. O Carnaval desse ano definitivamente não será igual àquele que passou. A começar pelos sambas-enredo. Dá para imaginar desfilar pela Tradição cantando samba da Portela? Dá. Em comemoração aos 20 anos de Sambódromo e de fundação da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba), os cartolas do Rio decidiram que, em 2004, as escolas poderão concorrer com sambas de carnavais passados. Mas, o excelente retorno financeiro para o caixa das entidades está fazendo com que o presidente da Liesa, Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, defenda a manutenção da nova regra por tempo indeterminado.
O carnavalesco da Império Serrano, Ilvamar Magalhães, é um dos defensores da idéia. “Desde o início do mês não há mais nenhuma fantasia disponível e a quadra lota cedo. Está sendo um fenômeno”, vibra. A Império reedita seu antológico samba de 1964, Aquarela Brasileira, de Silas de Oliveira.
Das 14 escolas do Grupo Especial, quatro adentrarão ao sambódromo entoando sucessos carnavalescos antigos.
A Portela, maior recordista de vitórias do carnaval carioca (21 títulos) traz para 2004 o vitorioso enredo Lendas e Mistérios da Amazônia, de 1970. A escola, sem título desde 1984, promoveu ainda um retorno às tradições trocando de musa – Adriane Galisteu, ex-musa da bateria, cedeu lugar a veterana Dona Dodô, de 84 anos.
A Tradição disputará o título com o samba Contos de Areia, da Portela. Foi naquele primeiro desfile de Carnaval na Passarela do Samba que a escola azul e branca, de Monarco e Paulinho da Viola, sagrou-se campeã, em 1984.
A Viradouro é a 4ª e última escola deste ano que não defenderá um samba inédito (da antiga São Carlos).
Amanhã No domingo, desfilam as primeiras escolas do Grupo Especial. Merece destaque o samba inédito da São Clemente Boi Voador sobre Recife: cordel da galhofa nacionall. Cheio de irreverência e deboche, a letra ironiza a cultura do apelo sexual e a alienação política da população.
O Salgueiro, apoiado pela indústria do álcool, fala de produção de energia. O desafio da escola será, como sempre, não perder pontos nos quesitos evolução, harmonia e conjunto, conseqüência do grande número de componentes que ano a ano lotam as alas. A Mangueira foi buscar o título (e a verba) em Minas Gerais. O enredo Mangueira redescobre a Estrada Real. E deste Eldorado faz seu Carnaval refaz o caminho (a Estrada Real) por onde passaram o ouro e os diamantes que saíam de Vila Rica (MG) em direção a Portugal. A escola tem empolgado o governador Aécio Neves, que já sentenciou “Minas Gerais, neste Carnaval, é verde-e-rosa”.
O carnavalesco Joãosinho Trinta, da Grande Rio, aposta na polêmica com o enredo Vamos vestir a camisinha, meu amor. Apesar do mistério em torno dos carros-alegóricos, é bem provável que a Passarela exale fantasias sexuais. Fala-se em carros do Kama-Sutra, lesbian-chic, com as libidinosas chacretes e o que a imaginação de Joãosinho criar.
E as novidades no Carnaval carioca não páram na avenida. A obesidade tradicional do Rei Momo deu lugar à Wagner Monteiro – 27 anos, alto, negro, lindo e atlético. Sinal dos tempos.
É hoje Embora não sejam tão festejados quanto os desfiles especiais, vale conferir a passagem do Grupo de Acesso A, neste sábado.
Dentre as 12 concorrentes estão escolas tradicionais como a União da Ilha, a Estácio de Sá e a Vila Isabel além de novas agremiações em franca ascendência, como a Acadêmicos da Rocinha (apadrinhada pelo empresário Maurício Mattos e com Adriane Galisteu à frente da bateria), a Alegria da Zona Sul (bancada pelo bicheiro Maninho) e a Lis Imperial, que tem o apoio da Mangueira.
Apenas uma delas subirá ao Grupo Especial e quatro descerão de categoria. Segundo olheiros de barracões, a Estácio e a Vila correm sério perigo.