Menu
Promoções

O lado mais conservador e bairrista de Zé Lins do Rego

Arquivo Geral

26/08/2004 0h00

É sempre surpreendente quando os ídolos e famosos abrem a retaguarda para seu público. Principalmente quando essa abertura se dá no campo das idéias. Espanta ver José Lins do Rego em O Cravo de Mozart é Eterno (Editora José Olympio) falar de futebol com paixão, de seus mestres e da tentativa de modernização da arte no País, entre outros assuntos. O prosador mostra-se um pensador minimalista numa coletânea de textos curtos e ensaios que chama atenção pelo tom nacionalista e populista.

Pouca gente conhecia esse lado ensaísta de José Lins do Rego. Todos se lembram dele de livros regionalistas, carregado de sotaque nordestino, como os emblemáticos Menino do Engenho, Fogo Morto e Doidinho. Pois, o mesmo cheiro de terra contido nestes romances perpassam os textos opinativos dele. O escritor é um intelectual desabusado e, sobretudo, um defensor das coisas do Brasil.

rançoÉ interessante perceber nas idéias do paraibano (que muitos consideram pernambucano pelo tempo e paixão vividos na terra de João Cabral) um ranço conservador e bairrista. O discurso é sentido quando ele menospreza a Semana de Arte Moderna de 22, reconhecida depois pelos especialistas como um passo importante para a modernização do fazer artístico brasileiro.

Zé Lins reclama que os artistas do movimento, “meia dúzia de rapazes inteligentes e lidos em francês”, importavam o estilo de gente como o italiano Marinetti, reinvindicando importância igual ou maior para os ensaios e a literatura feita contemporaneamente por pessoas como Gilberto Freyre, e o poeta Alberto de Oliveira. E ataca Macunaíma, um dos produtos mais evidentes da Semana de Arte Moderna: “Se não fosse o autor (Mário de Andrade) um grande poeta, seria Macunaíma uma coisa morta, folha seca, mais um fichário de erudição folclórica do que um romance”.

Melhor mesmo é deixar de lado as críticas ao moderno de Zé Lins, que soam como dor-de-cotovelo e ficar com o ensaísta que comenta o “fôlego e a classe” de craques que comiam a bola, como o “mestre do claro-escuro”, Domingos, antigo jogador do Bangu. Ou mesmo ver sua análise de literatos “gordos e magros”, assim definidos pela forma enxuta e objetiva, os magros, ou pela forma adjetivada e cheia de entrevírgulas com que escreviam, os gordos.

Fique ainda com os artigos sobre os amigos do Rei, ou seja, do escritor, gente como o recorrente Gilberto Freyre, uma amizade real, ou Machado de Assis e Euclides da Cunha, dos quais é grande admirador. Sobre os três tece belos e bem elaborados elogios. Aqui, dá para sentir o homem sensível que fez do universo canavieiro e sertanejo uma inspiração para tantos outros autores do romanceiro regionalista.

    Você também pode gostar

    O lado mais conservador e bairrista de Zé Lins do Rego

    Arquivo Geral

    26/08/2004 0h00

    É sempre surpreendente quando os ídolos e famosos abrem a retaguarda para seu público. Principalmente quando essa abertura se dá no campo das idéias. Espanta ver José Lins do Rego em O Cravo de Mozart é Eterno (Editora José Olympio) falar de futebol com paixão, de seus mestres e da tentativa de modernização da arte no País, entre outros assuntos. O prosador mostra-se um pensador minimalista numa coletânea de textos curtos e ensaios que chama atenção pelo tom nacionalista e populista.

    Pouca gente conhecia esse lado ensaísta de José Lins do Rego. Todos se lembram dele de livros regionalistas, carregado de sotaque nordestino, como os emblemáticos Menino do Engenho, Fogo Morto e Doidinho. Pois, o mesmo cheiro de terra contido nestes romances perpassam os textos opinativos dele. O escritor é um intelectual desabusado e, sobretudo, um defensor das coisas do Brasil.

    rançoÉ interessante perceber nas idéias do paraibano (que muitos consideram pernambucano pelo tempo e paixão vividos na terra de João Cabral) um ranço conservador e bairrista. O discurso é sentido quando ele menospreza a Semana de Arte Moderna de 22, reconhecida depois pelos especialistas como um passo importante para a modernização do fazer artístico brasileiro.

    Zé Lins reclama que os artistas do movimento, “meia dúzia de rapazes inteligentes e lidos em francês”, importavam o estilo de gente como o italiano Marinetti, reinvindicando importância igual ou maior para os ensaios e a literatura feita contemporaneamente por pessoas como Gilberto Freyre, e o poeta Alberto de Oliveira. E ataca Macunaíma, um dos produtos mais evidentes da Semana de Arte Moderna: “Se não fosse o autor (Mário de Andrade) um grande poeta, seria Macunaíma uma coisa morta, folha seca, mais um fichário de erudição folclórica do que um romance”.

    Melhor mesmo é deixar de lado as críticas ao moderno de Zé Lins, que soam como dor-de-cotovelo e ficar com o ensaísta que comenta o “fôlego e a classe” de craques que comiam a bola, como o “mestre do claro-escuro”, Domingos, antigo jogador do Bangu. Ou mesmo ver sua análise de literatos “gordos e magros”, assim definidos pela forma enxuta e objetiva, os magros, ou pela forma adjetivada e cheia de entrevírgulas com que escreviam, os gordos.

    Fique ainda com os artigos sobre os amigos do Rei, ou seja, do escritor, gente como o recorrente Gilberto Freyre, uma amizade real, ou Machado de Assis e Euclides da Cunha, dos quais é grande admirador. Sobre os três tece belos e bem elaborados elogios. Aqui, dá para sentir o homem sensível que fez do universo canavieiro e sertanejo uma inspiração para tantos outros autores do romanceiro regionalista.

      Você também pode gostar

      Assine nossa newsletter e
      mantenha-se bem informado