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O casamento inglês de John Berger

Arquivo Geral

15/07/2004 0h00

Uma reverência ao amor. Assim pode ser resumido o livro O Dia do Casamento, de John Berger, que acaba de chegar ao Brasil. O escritor inglês conta a história de Ninon, uma jovem que faz duas grandes descobertas simultâneas: a de ter sido infectada pelo vírus HIV e a de estar perdidamente apaixonada por um rapaz que nada tem a ver com a sua contaminação. Nos países em que publica o romance, o autor costuma escolher uma entidade filantrópica de assistência e prevenção à Aids para destinar parte da renda referente aos direitos autorais. No Brasil, a instituição beneficiada foi a Sociedade Viva Cazuza.

John Berger, de 78 anos, abandonou sua Inglaterra natal para viver entre camponeses num lugarejo dos Alpes Franceses, compõe uma narrativa que se articula como um canto surpreendente de otimismo.

Surpreendente porque o otimismo, hoje, é um valor em baixa – reservado aos manuais de auto-ajuda, à poesia popular açucarada, ao surrado discurso político e às mais variadas expressões do kitsch contemporâneo, parece que não há mesmo lugar na boa literatura para ele. E no entanto, contra todos os prognósticos, O dia do casamento é ótima ficção.

O que salva John Berger e faz de O Dia do Casamento um belo livro não é o tom poético, que muitas vezes apenas corrói a força da prosa sem lhe dar nada em troca. É a revivescência de uma visão de mundo que faz, da vida do homem, parte de uma vida maior, entranhada nos ciclos da natureza e no trabalho humano imemorial.

Nessa perspectiva, a vida não será bela pelos seus cenários falsificados e pela negação do horror; a sua beleza vem de uma força maior que não recusa nada, que se perde no tempo e que entende a aventura humana como realização de uma comunhão com a natureza.

De certa forma, o livro de Berger faz relembrar, nas entrelinhas delicadas de sua prosa, uma espécie de Europa tribal anterior aos estados, e que parece potencialmente se reencontrar na nova Europa, no fim das barreiras nacionais, num novo mundo que se abre neste novo século.

O eixo da história gira em torno de quatro personagens centrais: a eslovaca Zdena, que viveu um caso de amor com o ferroviário Jean Ferrero – a quem conheceu em Grenoble, França, numa noite organizada em prol dos refugiados, no final dos anos 60 –, e com quem teve a filha Ninon. Anos depois, Ninon, numa noite fortuita de amor com um presidiário foragido, contrai Aids; e seu amor Gino, o vendedor de enciclopédias, a quem acompanhamos sempre a bordo de uma motocicleta, decide casar-se com ela, contra todo o bom senso do mundo.

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    15/07/2004 0h00

    Uma reverência ao amor. Assim pode ser resumido o livro O Dia do Casamento, de John Berger, que acaba de chegar ao Brasil. O escritor inglês conta a história de Ninon, uma jovem que faz duas grandes descobertas simultâneas: a de ter sido infectada pelo vírus HIV e a de estar perdidamente apaixonada por um rapaz que nada tem a ver com a sua contaminação. Nos países em que publica o romance, o autor costuma escolher uma entidade filantrópica de assistência e prevenção à Aids para destinar parte da renda referente aos direitos autorais. No Brasil, a instituição beneficiada foi a Sociedade Viva Cazuza.

    John Berger, de 78 anos, abandonou sua Inglaterra natal para viver entre camponeses num lugarejo dos Alpes Franceses, compõe uma narrativa que se articula como um canto surpreendente de otimismo.

    Surpreendente porque o otimismo, hoje, é um valor em baixa – reservado aos manuais de auto-ajuda, à poesia popular açucarada, ao surrado discurso político e às mais variadas expressões do kitsch contemporâneo, parece que não há mesmo lugar na boa literatura para ele. E no entanto, contra todos os prognósticos, O dia do casamento é ótima ficção.

    O que salva John Berger e faz de O Dia do Casamento um belo livro não é o tom poético, que muitas vezes apenas corrói a força da prosa sem lhe dar nada em troca. É a revivescência de uma visão de mundo que faz, da vida do homem, parte de uma vida maior, entranhada nos ciclos da natureza e no trabalho humano imemorial.

    Nessa perspectiva, a vida não será bela pelos seus cenários falsificados e pela negação do horror; a sua beleza vem de uma força maior que não recusa nada, que se perde no tempo e que entende a aventura humana como realização de uma comunhão com a natureza.

    De certa forma, o livro de Berger faz relembrar, nas entrelinhas delicadas de sua prosa, uma espécie de Europa tribal anterior aos estados, e que parece potencialmente se reencontrar na nova Europa, no fim das barreiras nacionais, num novo mundo que se abre neste novo século.

    O eixo da história gira em torno de quatro personagens centrais: a eslovaca Zdena, que viveu um caso de amor com o ferroviário Jean Ferrero – a quem conheceu em Grenoble, França, numa noite organizada em prol dos refugiados, no final dos anos 60 –, e com quem teve a filha Ninon. Anos depois, Ninon, numa noite fortuita de amor com um presidiário foragido, contrai Aids; e seu amor Gino, o vendedor de enciclopédias, a quem acompanhamos sempre a bordo de uma motocicleta, decide casar-se com ela, contra todo o bom senso do mundo.

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