Depois da primeira noite com a aspirante a top Marcela (Tainá Müller), o tradutor em crise existencial Ciro (Júlio Andrade) se comporta como quem não ligará no dia seguinte, nem em nenhum outro. Ciro não tem telefone, não pede o número de Marcela nem acena com um novo encontro.
No entanto, os encontros dos dois serão muitos, porque o amor é o futuro do sexo em Cão sem Dono, longa-metragem de Beto Brant e Renato Ciasca, que estréia nesta sexta-feira nos cinemas da cidade. Baseado no livro Até o Dia em que o Cão Morreu (Companhia das Letras), de Daniel Galera, o filme tomou o nome de Cão sem Dono porque essa expressão, para Brant, expressa “um estado de espírito’.
É o estado de espírito de quem teme a entrega amorosa ou o que ela exige de coragem para “assumir suas emoções, sua história, suas escolhas’, afirma Brant. “É um traço de geração. É complicado se descobrir amando, precisando estar presente, querendo saber do outro’, diz o diretor. Ao tratar desse tema, Brant, que conquistou o respeito da crítica com seus quatro longas anteriores, diz que realizou um filme “intimista’.
Respiro
“A gente precisou se voltar para dentro assim como o personagem. Há um desapontamento com as perspectivas de transformação da sociedade brasileira. Há uma falência dessa condição’, afirma Brant. Cão sem Dono foi filmado em Porto Alegre, cenário do romance original, cuja adaptação para o cinema é assinada por Brant, Ciasca e Marçal Aquino.
Em Cão sem Dono, o acaso e os sentidos conspiravam favoravelmente na cena em que Ciro retorna à casa dos pais, depois de um surto depressivo. O ônibus “real’ tomado pelo personagem possuía um desses assentos em que o passageiro viaja de costas para o motorista. Isso contribuiu para que Brant e Ciasca traduzissem o regresso emocional de Ciro.
Da janela do ônibus, as imagens mostram a cidade ficando para trás, enquanto Ciro avança como quem recua. “É um momento duro para ele. Ele zera tudo na vida, para fazer a travessia dessa dor’, diz Brant.
A dor de Ciro surge da descoberta do amor por Marcela, num momento que parece ser tarde demais. Insegura quanto ao envolvimento dele e com um grave problema de saúde, ela se afasta, para atravessar sozinha a própria dor. A trajetória dos protagonistas é pontuada por outros casais formados pelos pais de Ciro (Roberto Oliveira e Sandra Possani) e um motoboy (Márcio Contreras) e sua mulher (Janaína Kremer), que se tornam amigos da modelo e do tradutor. Há ainda o personagem de Elomar (Luiz Carlos Coelho), porteiro do edifício de Ciro, fiel conselheiro, e Churras, o cachorro vira-lata de quem o tradutor se sente mais amigo que dono. Todos eles contribuem para descrever, como define Brant, “a construção do gesto de Ciro até o momento da entrega’.