Um aparelho desenvolvido por pesquisadores brasileiros pode baratear radicalmente alguns dos tratamentos contra câncer feitos com terapia fotodinâmica, na qual uma fonte de luz e um corante são usados para atacar o tumor.
Enquanto os aparelhos mais utilizados hoje para esse tipo de terapia custam cerca de US$ 150 mil, o protótipo desenvolvido pelo médico João Paulo Tardivo, da Faculdade de Medicina do ABC, poderia custar cem vezes menos, no mínimo. Sua aplicação está, por enquanto, limitada a tumores de pele, mas a eficiência do sistema nesses casos se mostrou comparável à da versão comercial. Batizado de RL 50 pelo pesquisador, o aparelho já foi patenteado no Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual).
A terapia fotodinâmica tenta contornar um dos problemas mais sérios de outros tipos de tratamento contra o câncer, como a quimioterapia e a radioterapia: os efeitos colaterais que acabam danificando células não-cancerosas junto com as dos tumores.
Para funcionar, o sistema precisa basicamente de uma fonte de luz (a utilizada nos aparelhos existentes hoje é um laser) e de uma substância sensível a ela, capaz de absorver a luminosidade. Tal substância é injetada diretamente no tumor que vai ser tratado e iluminada pelo laser.
elétron”A molécula capta a energia da luz, e isso faz com que um de seus elétrons [as menores partículas fundamentais, que giram em torno do núcleo dos átomos] entre num estado excitado”, explica Tardivo, 52. Acontece que esse estado é temporário, diz o pesquisador, e o elétron logo acha um jeito de se livrar da energia extra.
Quem paga a conta é a molécula de oxigênio (O2) que estiver por ali. Ao receber a energia, ela se transforma numa molécula eletricamente carregada, um verdadeiro veneno. As células tumorais, perto das quais se encontra a molécula sensível à luz, são mortas.
Tudo isso se conhece de longa data, mas a diferença é que Tardivo conseguiu substituir o laser por uma lâmpada comum e as moléculas –que custam US$ 2.000 por ampola– pelo azul de metileno, um corante comum.
“Descobri que os pioneiros da terapia fotodinâmica, lá nos anos 70, usavam uma fonte de luz normal em vez do laser”, afirma. O que importa, explica o médico, é que a luz seja vermelha, freqüência do espectro luminoso que consegue atravessar a epiderme. De quebra, o azul de metileno responde melhor à luz normal.
secadorFaltava, no entanto, a plataforma do aparelho. “Se eu quisesse mandar fazer uma fôrma plástica a partir de um molde, sairia caríssimo. Eu precisava de um troço que fosse leve, ergonômico, resistente ao calor e com uma ventoinha”, diz Tardivo. Ele logo percebeu que a resposta só podia ser um secador de cabelos, ao qual foi acoplada a lâmpada de 50 watts.
Com a ajuda de Amando Ito, da USP de Ribeirão Preto, que testou as especificações físicas do aparelho, Tardivo passou a testá-lo em dez lesões de câncer de pele, em cinco pacientes. Seis delas desapareceram completamente e duas diminuíram pela metade, enquanto outras duas não responderam ao tratamento. O próximo passo, diz, é melhorar o comportamento do azul de metileno sob luminosidade.