De passagem pela cidade com a temporada do espetáculo Homemúsica, que estréia amanhã no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), o poeta, performer e apresentador Michel Melamed concede entrevista ao Jornal de Brasília, na qual fala sobre a montagem, misto de teatro com show musical e poesia, concebida, dirigida e estrelada pelo próprio comandante do programa Re(corte) Cultural, da TV Cultura. O espetáculo é a última parte da Trilogia Brasileira, projeto antecedido por outras duas peças, Regurgitofagia (apresentada em 2005 na capital federal) e Dinheiro Grátis (ainda inédita no circuito brasiliense). Em Homemúsica, Melamed diz preocupar-se em fazer o público interagir de forma voluntária e desenvolver reflexão crítica acerca da realidade brasileira.
O brasiliense vai sentir falta de ter acompanhado os outros espetáculos que compõem a trilogia?
Espero que sintam. Seria um sinal de expectativa de ter visto. Mas não que seja necessário ter assistido aos outros para compreender Homemúsica. Cada espetáculo se resolve em si mesmo: têm início, meio e fim e histórias diferentes. Mas quem viu os três pode perceber as conexões entre eles.
Os dois espetáculos anteriores foram muito bem recebidos pelo público e pela crítica. Existe uma pressão por esse ser o fim da trilogia?
Tem o nervoso, a pressão de estar se jogando no desconhecido. Mas peça não é feita com intenção de atingir um determinado tipo de gosto ou expectativa. A prioridade número um é fazer uma obra que tenha consistência, um trabalho de pesquisa. Mas, concomitantemente, quero que a peça se comunique, seja alegre. A idéia é transgredir a expectativa. Surpreender: esse é um dos meus objetivos.
Você é ator, apresentador, poeta, músico…. em qual arte você se encaixa melhor?
Não me vejo exatamente como ator, apesar de achar que estou ator, que faço trabalho de ator nesses espetáculos. Quero crer que faço trabalho de poeta. Meu trabalho é ligado à poesia; ele começa sempre no papel. De fato, interajo com várias linguagens, sim. O poeta Ezra Pound tem uma definição sobre artistas. Ele diz que existem três tipos: os revolucionários, que são caras que transgridem as linguagens, instauram novas linguagens; os virtuoses, que são os que pegam essa linguagem que foi inventada e levam ao limite, fazem como ninguém fez antes; e os diluidores, enfim, a explicação está no nome.
Qual dessas vertentes você abraçou?
Gosto de imaginar que estou mais interessado no primeiro caso, que é o fato de estar experimentando as linguagens, integrando-as. Meu interesse com as linguagens artísticas é de trabalhar nas fronteiras delas. Homemúsica não é um espetáculo de teatro, um show de música, não é um recital de poesia. É tudo isso: é uma performance. O rótulo é de poeta, mas o trabalho é de fronteiras de linguagens, pelo mesmo motivo de eu entender que a arte é um trabalho de transgressão de realidades. Estou querendo crer que o fato de eu equilibrar diversas linguagens me permite apresentar ao público um trabalho mais original ainda, que, no final, com as várias porcentagens de teatro, de música, de performance, ele acabe instaurando uma linguagem única.
Qual seria o balanço dos objetivos da trilogia de espetáculos que se encerra com Homemúsica?
Regurgitofagia tem a questão da antropofagia, dos meios de produção, excesso de informação, consciência crítica e a questão de interferir na realidade: os choques estão interferindo no corpo do cara ali. Dinheiro Grátis discute com as pessoas esse triunfo do capitalismo. É a frase: a ideologia versus conta de luz. Homemúsica chega no ponto de que eu vejo a gente numa sinuca, querendo antever uma situação possível. Estou me dispondo a fazer música, porém a realidade é “inemascarável”. Nós vivemos numa subcondição de vida. O Brasil vive numa barbárie. Todos os segmentos da sociedade brasileira estão dominados por máfias, violência, intolerância, corrupção. O País fica sem perspectiva.
A peça diz respeito a essa situação nacional?
Essa peça fala, em alguns momentos, de forma muito contundente sobre isso. E, ao mesmo tempo, tenta trazer à luz o que há ainda. Não tenho solução para o País. O Brasil é muito doente. Mas o que gera a maior das doenças é o pessimismo, que faz as pessoas dizerem: “Ah, é o Brasil”. E isso autoriza as pessoas a continuar agindo da mesma forma. A peça é um tipo de tentativa de falar: “Cara, a responsabilidade é nossa, não é o político que é o filho da p…, não.” Quem faz qualquer coisa que agrida o outro, que seja um ato de ignorância, é tão filho da p… quanto esse político. Então as pessoas que não compactuam com isso têm de se posicionar. É o mínimo de um projeto de civilização.
Homemúsica – Amanhã e sábado,
às 21h, e domingo, às 20h, no Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (Setor de Clubes Sul, Trecho 2). Sessões de qunta a domingo, até o dia 19. Ingressos a R$ 15 (inteira).
À venda na bilheteria do teatro.