Aos 20 anos de idade, o chileno Pablo Neruda começou a viajar pelo mundo. “Descobri o quanto a Terra havia repentinamente crescido para mim, e quanto os homens eram mais numerosos, minha família maior”, contou. “De uma hora para outra eu tinha milhões de irmãos”. Como diplomata e poeta, sempre registrava suas impressões com o olhar nos mares e nas florestas. Muitos desses relatos estão em Pelas Praias do Mundo. Além da poesia envolvente, Neruda narra episódios curiosos. Foi o que ocorreu na primeira visita que fez à China, em 1951, para entregar o Prêmio Lênin da Paz à viúva de Sun Yat Sen, Sung Sin Ling. Na hora do café, sentada ao lado do poeta, a mulher sacou uma cigarreira de ouro maciço, incrustada de brilhantes e rubis. Neruda tomou o objeto nas mãos, fez muitos elogios e o devolveu. No fim do café, a viúva dirigiu-se a ele com energia: “Minha cigarreira, por favor”.
Numa descomunal saia-justa, o poeta deu início a uma frenética procura debaixo da mesa e das cadeiras, até que, “no último minuto da agonia”, a cigarreira reapareceu nas mãos de Sung Sin Ling. Estava no bolso dela. Neruda, diante daqueles olhos negros e acusadores, já estava se convencendo de que era mesmo “um ladrão de jóias cinzeladas.”
Na sua passagem pelo Brasil, encanta-se por Brasília, que assim descreveu: “O ar! O amplíssimo céu! Da altura: a cidade branca, a cidade! Vênus, Brasília”. O livro é um mergulho na vida e na poesia de Neruda, e de todos os homens: “Pertenço com orgulho à multidão humana, não a uns poucos, mas a uns muitos”.