Peninha se define como um cantor de pocket shows, com público entre 400 e 4 mil pessoas – “quando o evento é grande” – e diz que procura sempre mostrar o seu melhor: “Acho que sempre tendo a crescer, minha profissão é legal. Nunca fui cantor de ter um grande público”
Estar “fora da mídia” nesses tempos de celebridade instantânea pode acabar com as pretensões de qualquer oportunista que se arvore a ser ídolo popular. A tal “mídia” que se leva em conta é aquela que transita no eixo Rio-São Paulo. No entanto, para a carreira de gente como Rosana, Peninha, Wanderléa, Wando, a ausência do noticiário não reflete a intensidade com que esses artistas trabalham, compondo, ensaiando, viajando em turnê pelo interior do País. “Por ser imediatamente assimilável, a música tida como cafona parece fácil, dá a idéia de ser criada com pouco trabalho. Quem faz música sabe que isso é falso”, diz o ex-titã Nando Reis, campeão de execução em rádios pelo País.
O cantor Wander Wildner cita como exemplo de elaboração um clássico do brega-cult, Tu És o MDC da Minha Vida, de Raul Seixas. “Tem uma letra perfeita e uma música que parece simples, mas não é. Eu até ia cantá-la no show, mas não me atrevo, é muito difícil”, explica. “Outro bom exemplo são as músicas do Odair José. As letras são lindas. Quem duvida vá ver. “As pessoas vão se surpreender com o profissionalismo de Rosana, ela é fera”, defende Peninha, ele próprio um trabalhador dedicado. “Procuro sempre mostrar o meu melhor. Acho que sempre tendo a crescer, minha profissão é legal. Nunca fui cantor de ter um grande público, sou mais de pocket shows. Meu público varia de 400 a até 4 mil pessoas, quando o evento é grande.”
Peninha, Odair, Wanderléa, Gretchen, Wando, Sidney Magal, Rosana, Wildner e outros estão protagonizando um evento curioso, chamado de Romântico ou Cafona? (de amanhã a domingo, em São Paulo) e que sairá em turnê por festas Brasil afora. Dia 25 próximo, na véspera do feriado de Corpus Christi, Magal e Wando desembarcam na cidade para apresentações na Festa Brasília Brega, no Marina Hall, acompanhados pelo grupo Avacalhando o Vocal. Amanhã, Gretchen é a atração da boate Macadâmia, na Asabac, a partir das 21h.
Esses artistas estão tão pouco acostumados a sair na grande imprensa que, quando ocorre um evento como este eles estranham e nem se preocupam muito em dar entrevistas ou retornar telefonemas. “Rosana está com a agenda cheia, não vai dar para falar hoje. Ela está em Fortaleza”, diz um assessor. “Wanderléa só chega de viagem amanhã. Foi fazer show em Araraquara”, diz outro. “Wando está disponível só até amanhã, ou depois do dia 9”, informa um terceiro. O revival de Magal até o levou a atuar no cinema (O Caminho das Nuvens) e novela (Da Cor do Pecado) recentemente. Rosana, Peninha e Wando têm lançado discos regularmente, embora não repitam os êxitos de anos atrás.
Televisão Quando muito, esses cantores que já têm uma certa estrada aparecem em um ou outro programa de televisão popular, tendo também de enfrentar a concorrência dos ídolos da juventude. Mais um estigma? “Quando comecei havia divisões até dentro das gravadoras. O sonho dos caras que tocavam em AM era tocar em FM. E vice-versa”, lembra Peninha. Hoje, cada um por si, essas cigarras trabalham como formigas. Como diz Wildner, o caminho da música mudou “como os fundamentos da vida”. Ser brega também requer estofo. “Na maioria das vezes as pessoas são muito mais do que aparentam”, alerta Peninha.
Brega ou cafona, a inclusão de qualquer um dos dois termos no título já é motivo de insatisfação. “Não tinha me ligado no nome. Os dois são ruins, mas acho que cafona é pior do que brega”, diz Peninha. “Brega chega a ser engraçado, mas cafona é mais agressivo, além de ser uma expressão muito antiga. É do tempo em que Francisco Cuoco era gatinho”, brinca o compositor. Apesar disso, ele acha o projeto “bonito”. “Não estou preocupado com o conceito, vou lá fazer meu show, como faço sempre, e vou embora”, arremata.
Como se sabe, Peninha virou cult quando Caetano gravou Sonhos no final dos anos 70 e ganhou reforço com Sozinho, nos 90. Foi com essa música que Caetano vendeu mais de um milhão de discos pela primeira vez em quase 30 anos de carreira. “Para mim foi importante ele ter gravado minhas músicas, mas ele também tirou um barato disso. Se eu fosse o Chico Buarque não teria graça nenhuma”. Depois disso, até a cantora italiana Mina gravou Sozinho, tendo a gravação de Caetano como referência.
A confusão entre o sofisticado e o brega quase sempre passa pelo denominador da canção de amor. Rosana até hoje é identificada por O Amor e Poder (aquela do refrão “como uma deusa”), mas costuma incluir em seus shows covers de Janis Joplin e tem referência de blues em seu canto. “Apesar de meu trabalho ter esses outros aspectos, alguns jornalistas me tratam de maneira equivocada”, alfineta ela.