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Músicos da cidade brilham em trilhas sonoras para cinema, teatro e dança

Arquivo Geral

16/06/2009 0h00

 


Como imaginar a clássica cena do chuveiro de Psicose (Alfred Hitchcock, 1960), quando a mocinha é esfaqueada, sem os aflitos acordes de violino como pano de fundo? Esse é só um exemplo do poder de síntese alcançado pela dobradinha imagem- som. O “truque”, porém, muitas vezes passa batido para o espectador comum, que não se dá conta que o encontro foi meticulosamente pensado por um profissional – o compositor de trilha sonora.


Essa forma de arte tem tido excepcional desenvolvimento em Brasília – graças à colaboração cada vez mais frequente entre os músicos da cidade e diretores de teatro e cinema.


“A música tem papel de trazer clima e criar momentos de tensão e relaxamento. Gosto desse conceito de climas opostos”, ensina o percussionista Luciano Marques, o Lupa, autor da elogiada trilha de Traços ou Quando os Alicerces Vergam, peça do diretor André Amaro (prêmio de melhor sonoplastia no Festival de Monólogos de Teresina, em 2007).


Membro do grupo Casa de Farinha, Lupa já compôs inclusive para espetáculos de dança e exposições de artes plásticas. Seu primeiro contato com esse universo se deu em 1992, quando trabalhou como músico no espetáculo Na Rua com Romeu e Julieta, da lendária trupe teatral Esquadrão da Vida, criada por Ary Pára-Raios (1939-2003). “Foi mais uma compilação. Tinha até Beatles no meio. E procurávamos sempre uma leitura de cultura popular, voltada para o coco”, conta.


Três anos depois, Lupa mergulhou de cabeça em projeto que resultaria nas peças Koikwa – Um Buraco no Céu e A Dança do Encoberto, dirigidas pelas atrizes Larissa Malty e Clarice Cardell. Na ocasição, o músico chegou a realizar pesquisa de campo na aldeia indígena de Xicrim Catete (PA) e em São Luís (MA) com o intuito de “coletar sonoridades”.


Lupa também realizou trabalhos autorais para a extinta Companhia de Teatro Piramundo e para diretores como José Regino e Ricardo Guti. Atualmente, trabalha na montagem circense Parabolé, com coordenação de Júlia Henning e Maíra Moraes.


Nicho de mercado
Destacados DJs da cidade também têm experimentado suas texturas sonoras nos palcos. É o caso de Tomás Seferin, produtor que desenvolve, ao lado de Rodrigo Reis, o projeto The Random.


“A maioria do público que me conhece como DJ acha que não trampo com isso. Na verdade, é esse trabalho com trilhas e publicidade que me sustenta. É difícil viver como DJ em Brasília”, observa Seferin, que acaba de criar o tema original de Cidades inventadas, novo documentário do cineasta Renato Barbieri.


O artista começou a levar a sério esse nicho de mercado após convite feito por sua esposa, a atriz Ludmilla Valejo. Ela o convocou a participar do espetáculo Páginas Amarelas, da Companhia B de Teatro (2006). “Eu tinha um background de jazz. A peça pedia um pouco isso”, explica. Resultado: em sua estreia como “trilheiro”, Tomás faturou o prêmio de melhor trilha sonora da mostra universitária do Festival Internacional Riocenacontemporânea e também saiu consagrado do Prêmio Sesc de Teatro Candango de 2007.


Seferin também assinou as trilhas do minidocumentário Criador de Imagens (Diego Hoefel, 2007), da peça Ladrão de Mim (Roustang Carrilho, 2008) e da instalação Play
Replay (Atila Regiani, 2008). Seus próximos planos estão relacionados a montagens da Companhia B de Teatro. “É um processo que anda lado a lado. Eles trazem informações
sobre o tema e sobre o clima da cena. Ao mesmo tempo, eu pesquiso e mando material para que eles façam improvisações. Assim, os dois vão se fazendo”, explica.


Eliezer Amnesia é outro DJ que desenvolve trabalho fora das pistas de dança. Assim como Seferin, ele já colaborou com Renato Barbieri, no documentário, Biography: Maurício de Souza. Também assinou a trilha do documentário sobre o artista plástico Glênio Bianchetti, a ser veiculado na TV Brasil. Para esse trabalho, que contou com dois compositores, Amnesia assumiu a direção musical e mixagem de som.


Admirador do compositor minimalista Philip Glass, Amnésia também pode ser ouvido na trilha de Dia de Folga, filme de André Cavaleira de 2006. “O André queria uma ’trilha moderna’. Montamos uma com elementos eletrônicos e instrumentos de cordas”, conta.


Admirável paisagem musical
Em um cenário ao mesmo tempo futurista e asséptico, como um reality show, os personagens de Miriam Virna e Alessandro Brandão experimentam os efeitos do soma, a droga perfeita. Capturado pela música sintética, o público também é envolvido por sensações – estamos na montagem do espetáculo Admirável – E só para selvagens e quem manipula os sons, ao vivo, é Cristiano Portilho, o DJ Quizzik.


Arquiteto de formação e estudante de artes cênicas, Quizzik passou a temporada da peça de Miriam Virna (livre adaptação de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley) em uma espécie de coxia, onde podia controlar as bases pré-gravadas em seu notebook sem perder de vista o movimento dos atores.


“Nessa montagem específica, eu acompanhava o roteiro. Como havia muitas falas que se repetiam, era perigoso eu me confundir. Então havia as ’deixas’ (palavras-chaves), que indicavam a hora de entrar em ação”, revela o produtor, conhecido na noite candanga pelos sets de electro, IDM e maximal.


Seu “feeling”, garante, se deve muito a sua familiaridade com o teatro. “A música não pode dar uma ’roubadinha’ na cena – ela tem que catalizar a emoção. Tenho assistido a muitos filmes para observar como funciona. Mas o teatro é vivo e, mesmo tendo bastante ensaio, é possível que na hora o ator entre em uma emoção que nunca havia entrado antes”, explica.


Quizzik já compôs para diversos curtas, como Tricô (Luciana Martuchelli, 2001), Eu Personagem ( Zepedro Gollo, 2007) e Olhos nos Olhos (Johil Carvalho e Sérgio Lacerda, 2007). Um trabalho de maior fôlego, no entanto, foi dedicado à dança: em 2008, ele assinou a trilha de 2, adaptação do clássico de Plínio Marcos Dois Perdidos numa Noite Suja, realizada pela companhia baSiraH. “Eles queriam um negócio sujo, quase sem melodia e com muito ritmo. Então fiz esse trabalho de difícil digestão, captando sons de sirene de polícia e voz de gente em feira. O resultado ficou bem cinematográfico”, avalia


Aficcionado pelas trilhas dos filmes de David Lynch (a cargo de Angelo Badalamenti), o DJ entrou no universo da música incidental quase por acaso. Sua mulher, a atriz Hanna Reitsch, o chamou para ser figurante em um curta-metragem. A locação era na boate Landscape e Quizzik deveria simular que estava discotecando. Para animar a cena, ele disparou um CD com composições próprias. “Era a filmagem de um plano-sequência, que durou a noite toda, mas o pessoal pedia para ouvir minhas músicas. A partir daí, fiquei integrado a essa turma”, revela.








  SAIBA +

Cristiano Portilho, Quizzik – Arquiteto, DJ e produtor de trilhas para cinema e teatro, assina a peça Admirável e Só para Selvagens e o curta Olhos nos Olhos, entre outros trabalhos. www.myspace. com/quizzik)

Tomás Seferin – Artista plástico e DJ, atua como produtor de trilhas desde 2004, entre elas a peça Paginas Amarelas e a animação Nada como o Firmamento . www.tomasseferin. blogspot.com

Eliezer Amnesia – DJ atuante na noite de Brasília, seus trabalhos vão de trilhas para desfiles de moda a cinema e teatro. www. myspace. com/ amnesiatracks

Lupa – Percussionista do grupo Casa de Farinha e produtor de trilhas. Assina Traços ou Quando os Alicerces Vergam. casadfarinha. blogspot . com

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