Como poucos cineastas surgidos no começo dos anos 1980, o norte-americano Jim Jarmush soube traduzir seu tempo nos filmes. Mas, diferentemente de muitos contemporâneos, o “tempo” do cinema de Jarmush não é o do cidadão comum, mas daqueles personagens à margem, diferentes ou estranhos. Aqueles com dificuldades para se adaptar, perdidos, sem raízes, em busca de identidade, afirmação ou sentido para a vida. “Questões como acaso e identidade estão sempre presentes nos filmes dele, desde o primeiro, Permanent Vacation”, comenta Sérgio Moriconi, curador da mostra O Baú de Jim Jarmush, que estréia nesta quarta-feira no Centro Cultural Banco do Brasil.
“Jarmush aparece num momento de pulverização das identidades, quando tudo está muito misturado”, resume Moriconi. A pós-modernidade e o hibridismo cultural também são marcas do trabalho do cineasta, no qual convivem a cultura letrada, a cultura de massa e a contracultura.
Personagens como os protagonistas de Trem Mistério – um casal de japoneses fãs de Elvis Presley, em visita a Memphis, onde o cantor teve sua mansão –, por exemplo, observam que a cidade americana é parecida com a sua Yokohama. Ou mesmo o trio de protagonistas de Estranhos no Paraíso, que encontram semelhanças em Cleveland, Nova York e qualquer outra cidade por onde passam. Ou mesmo o personagem central de Permanent Vacation que, ao chegar a Paris, percebe que gostava muito mais da capital francesa antes de conhecê-la.
Este filme, aliás, faz sua estréia nacional na mostra. Lançado originalmente em 1980, quando Jarmush ainda era estudante de cinema, o longa já apresenta muitas das principais características que configuram a cinematografia do diretor, como a crítica à idealização da América, a presença do estrangeiro, as possibilidades de comunicação e a ausência dela. O sucesso de seus filmes nos anos 80 – especialmente na Europa – consagrou o diretor e ajudou a dar novo fôlego ao cinema independente – moribundo no começo daquela década.
A mostra vai além da mera retrospectiva da carreira: aos dez longas, somam-se o episódio feito para o filme Ten Minutes Older: The Trumpet e o curta-metragem Sobre Café e Cigarros, de 1986, que depois seria transformado em longa por Jarmush em 2003. Também estão presentes filmes nos quais Jarmush participa como ator, como Sem Fôlego, e uma seleção de suas obras favoritas.
Os melhores
Os filmes foram escolhidos por Sérgio Moriconi a partir de uma série de listas que Jim Jarmush preparou ao longo da última década, para revistas ou sites, com as categorias 10 melhores filmes do anos 80, Os 12 melhores filmes em preto-e-branco, Os 10 melhores filmes de todos os tempos, entre outras. Para escolher os filmes, o curador usou como critério as obras ao alcance da produção e trabalhos nos quais é possível identificar influências que seriam abraçadas pelo diretor. “Ele é o rei das listas, sabe perceber o vigor e a espontaneidade tanto na arte culta quanto no cinema trash”, comenta Moriconi. Entre seus preferidos presentes na mostra estão Acattone – Desajuste Social (1961), de Pier Paolo Pasolini; Acossado (1960), de Jean-Luc Godard; A Marca da Maldade (1958), de Orson Welles; e Faça a Coisa Certa (1989), de Spike Lee.
A coroação da mostra seria a presença do homenageado no Brasil (país onde ele viveu durante um ano, no Rio de Janeiro, e montou uma produtora). E isso, conta Sérgio Moriconi, quase aconteceu. “A vinda dele estava quase certa, mas ele começou a filmar seu próximo trabalho”, explica. Toda a negociação para a mostra foi feita diretamente com o produtor do cineasta. “Ele (o produtor) foi muito solícito, nos ajudou inclusive a conseguir cópias novas de alguns dos filmes do Jarmush, diretamente de distribuidores europeus”, conta. Todo o material gráfico do projeto (cartazes, catálogo) teve de passar pelo crivo do diretor. “Tivemos que mandar por e-mail para ele. Isso só mostra o cuidado dele com sua obra”, analisa o curador.
Confira a programação
Dia 7 de novembro
16h – Aquele que Sabe Viver
18h – Trem Mistério
20h – Estranhos no Paraíso
8 de novembro
16h – Roma, Cidade Aberta
18h – Pull my Daisy + Last Clean Shirt
20h – Down by Law
Dia 9 de novembro
16h – Johnny Guitar
18h – Os Corruptos
20h – Trem Mistério
Dia 10 de novembro
16h – Sem Fôlego
18h – Down by Law
20h – Sobre Café e Cigarros
Dia 11 de novembro
16h – Sobre Café e Cigarros
18h – Estranhos no Paraíso
20h – Pull my Daisy + Last Clean Shirt
Dia 13 de novembro
16h – A Marca da Maldade
18h – Uma Noite Sobre a Terra
20h – Year of the Horse
Dia 14 de novembro
16h – Faça a Coisa Certa
18h – O Estado das Coisas
20h – Ghost Dog
Dia 15 de novembro
16h – Accatone
18h – Year of the Horse
20h – Uma Noite Sobre a Terra
Dia 16 de novembro
16h – Acossado
18h – Tigrero
20h – Flores Partidas
Dia 17 de novembro
16h – Permanent Vacation + Ten Minutes Older
18h – Ghost Dog
20h – Dead Man
Dia 18 de novembro
16h – Dead Man
18h – Flores Partidas
20h – Permanent Vacation + Ten Minutes Older
O Baú de Jim Jarmush – De 7 a dia 18 de novembro, com sessões às 16h, 18h e 20h, no Centro Cultural Banco do Brasil (SCES Trecho 2). Ingressos: R$ 4 e R$ 2 (meia). Informações: 3310-7087.