No início do século 21, estudar o trotskismo brasileiro dos anos 1950 e 60 parece uma volta a um passado distante, sepultado na memória de uns poucos na faixa dos 50 anos. No entanto, os argumentos do historiador Murilo Leal, no livro À Esquerda da Esquerda, revelam que um olhar mais atento ao tema pode lançar luz à compreensão do presente, quando muito se fala em crise do marxismo e dos valores socialistas, sobretudo no momento atual, quando um governo auto-intulado de esquerda ocupa o Planalto e já inicia um precoce processo de desgaste de governabilidade.
Para Leal, o entendimento das perplexidades das últimas décadas do século passado e do começo do novo milênio passa pela revisão dos debates teóricos e as lutas políticas concretas que foram travadas nos anos 1900, mas que ainda guardam reflexões. No período retratado no livro, de 1952 a 1966, o trotskismo brasileiro esteve abrigado sob a sigla do Partido Operário Revolucionário (POR), inspirado na IV Internacional, fundada por Leon Trotsky.
As idéias revolucionárias, a crítica do stalinismo, a valorização da democracia socialista, a denúncia da burocratização dos partidos comunistas, a compreensão de que o capitalismo poderia competir com vantagem ao esclerosamento da União Soviética foram alguns dos ativos do patrimônio dessa corrente de pensamento no Brasil. Na opinião de Leal, o debate dessas idéias foi a principal ação prática do POR.
Além disso, a relevância do partido no debate político ocorreu, sobretudo, em setores específicos da classe operária e dos sindicatos, particularmente no interior de estados como Pernambuco e Paraíba, fugindo um pouco do senso comum de que as idéias mais à esquerda ficaram restritas ao eixo Rio-São Paulo.
No entanto, Leal adverte que a leitura documental dos arquivos deixados pelos caciques da legenda trotskista no Brasil revela certos exageros nas idealizações e alguma falta de realismo na tomada de decisões, como no entendimento do golpe de estado de abril de 1964.
No total, o autor realizou 32 entrevistas com ex-militantes do POR no Brasil e exterior. Nas conversas, Leal constatou que a legenda teve uma convivência crítica e tensa com o então maior sigla de esquerda do País na época, o Partido Comunista. Membros do POR, secretamente, assumiam militância em partidos e movimentos de esquerda mais amplos, buscando alterar seus rumos em busca.
De modo geral, o principal fato trazido pelo livro de Murilo Leal é que os militantes trotskistas se inseriram como uma espécie de núcleo de idéias contra-hegemônicas, em pleno auge da Guerra Fria. No entanto, o partido nunca conseguiu suplantar o desafio de se tornar na grande voz dos operários brasileiros, o que parece ter sido o principal desejo de seus membros. Por fim, o POR transformou-se em uma espécie de seita partidária, sem grande contato com a população.