Em pesquisas e andanças na própria terra natal do Maranhão, o compositor Zeca Baleiro descobriu um baú de tesouros e apresentou ao mundo o dono das riquezas. Baleiro desenterrou cerca de 300 músicas do poeta e compositor Antônio Vieira, de 84 anos, que dos 60 para cá, permearam a história da cultura maranhense. Toda a genialidade de Vieira chega pela primeira vez à capital federal hoje, acompanhada da modernidade de Baleiro no terceiro show da série Da Idade do Mundo, no Centro Cultural Banco do Brasil.
Seu Vieira, como é chamado popularmente, nunca tivera seu talento reconhecido, ou até conhecido, no final do ano de 2001 quando, aos 81 anos, gravou seu primeiro álbum intitulado O Samba é Bom. O disco é fruto de um show idealizado e produzido por Zeca, pupilo do precursor do samba de terreiro maranhense, no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís. A apresentação reuniu, entre outros, Elza Soares, Sivuca, o violonista Sinhô e Rita Ribeiro, primeira cantora da nova geração a da MPB a gravar a mais famosa canção de Antônio Vieira, Cocada, além de Banho Cheiroso e Tem Quem Queira – canções que, com Mulata Bonita, Mocambo, Maçarico, Martim-Pescador e Balaio de Guarimã, fazem parte do repertório que Mestre Antônio Vieira apresenta hoje no CCBB.
Entre prosa, verso e batuque, Seu Vieira não se considera um sambista – pelo menos, não no sentido genuíno da palavra tal como Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho e outros bambas. O músico, porém, é a prova viva de que o Maranhão também faz samba. E o faz numa linguagem bastante regionalista: o repertório de Vieira é formado por samba-canção, bolero, valsa, bossa nova mas, principalmente, os ritmos carimbó, baralho, tambor de crioula e bumba-meu-boi, peculiares do estado nordestino.
A figura principal nos shows de hoje – ocorrem em duas sessões, às 13h e 21h – é Antônio Vieira. O ícone pop da MPB maranhense ficará em segundo plano. Zeca Baleiro é responsável pela direção musical do espetáculo, no qual Vieira será acompanhado por Swami Jr. (violão sete cordas), Webster Santos (cavaquinho, violão e baixo), Zezinho Pitoco (sopros) e Ary Colares (percussão). Baleiro sobe ao palco em apenas dois momentos: no primeiro faz breve apresentação solo de seu repertório e, em seguida, faz dueto com o mestre Vieira em suas três principais canções.
Depois de integrar a lista de veteranos do samba descobertos depois dos 70 anos de idade (a exemplo de Vó Maria, Riachão e Zabé da Loca, a última atração de Da Idade do Mundo) com seu disco O Samba é Bom, Seu Vieira também ganhou um documentário em vídeo, Mestre Vieira – Poema Para o Azul. O filme também fora incentivado por Zeca, que hoje estuda os escritos da falecida escritora paulista Hilda Hilst para musicar suas poesias.