Um filme com 80 atores e uma só personagem. Assim Marcelo Masagão conceituou seu filme 1,99: Um Supermercado Que Vende Palavras, que estreou em São Paulo na semana passada e deve chegar a Brasília no próximo mês. Masagão também acha graça quando alguns críticos reclamam da falta de dramaturgia – “Mas o filme é conceitual!”, exclama.
Ex-militante trotskista, Masagão um belo dia parou para pensar sobre o que estava ocorrendo com as pessoas da sua geração, a todos aqueles que, como ele, um dia pensaram até em pegar em armas para mudar o mundo. “Viramos consumistas”, resume. Para refletir sobre o fenômeno, ele se associou ao roteirista Gustavo Steinberg. Então começaram a trabalhar num projeto para discutir o fetichismo do ato de consumir.
É um cinema de difícil classificação, esse de Marcelo. Sua visão fragmentada é uma coisa que vem do documentário – e alguns de seus filmes possuem esse formato –, mas Masagão prefere definir seu cinema ensaístico como “documentado”, “falsos” documentários com atores. O cineasta já tem planos futuos: pesquisa para o próximo filme a psiquê humana, mas anuncia que não vai colocar nenhum doente diante da câmera. Tudo será criado e recriado com atores.
Antes de chegar ao supermercado de 1,99, Steinberg e Masagão pensaram em fazer um filme sobre uma rua próxima à antiga Água Espraiada, que começa numa favela, com barracos, atravessa uma zona de classe média para chegar a casas de gente muito rica. Toda a desigualdade social do Brasil contemporâneo encontra-se aí resumida num só espaço urbano.
Desistiram dessa idéia, entre outras coisas, porque a rua era muito feia. Mas chegaram à conclusão de que o supermercado era o espaço ideal para o que queriam dizer, por ser democrático. “Todo mundo consome, desde um cestinho com algum item básico até carrinhos atulhados de supérfluos.” E criaram o supermercado de 1,99. É um supermercado que vende conceitos e idéias. Todo branco, suas estantes têm apenas caixas com rótulos, onde você pode comprar desde comida até “felicidade”.
Masagão explica o conceito de 1,99: “Nasceu de uma briga entre a sociologia e a psicanálise.” A primeira se constitui na matéria-prima das reflexões do roteirista. A segunda é a sua praia. E ele acha que aqui se despede do seu trotskismo, pois o filme não é comunista nem católico, no sentido de vender palavras de ordem. É um filme em aberto, no qual o espectador fica livre para criar.