Em Brasília, meio-dia. Estados Unidos: 6h30. O telefone toca no quarto de hotel, em os Angeles, no qual a atriz Luana Piovani encontra-se hospedada. Disposta e simpática – ainda que no antecipado da hora –, com a rouquidão aveludada de sua voz, é ela mesma quem atende o telefonema. Luana fazia as malas de volta ao Brasil. A próxima parada, justamente, é Brasília, onde chega hoje para apresentar temporada do espetáculo Pássaro da Noite, cuja produção é assinada por ela, até domingo, na Sala Martins Penna do Teatro Nacional. O monólogo, feito para o público adulto, é de autoria de José Antônio de Souza. Direção de Marcus Alvisi.
A peça conta a história de uma mulher numa situação de solidão absoluta, no fim de uma noite de festa, sobressaltada por velhos (e conhecidos) questionamentos da raça humana: “Onde estou?”, “Quem sou?”. “Nessa de buscar descobrir, ela vai voltando no tempo, revisitando passagens de sua vida. Algumas divertidas; outras, nem tanto. A bússola da personagem, porém, é o humor”, prefacia Luana.
Pássaro da Noite é um divisor de águas na vida e na carreira de Piovani, escreve ela, no texto de apresentação do espetáculo. Solidão em cena que gera “amadurecimento e maturidade”: “Já estava na hora de vestir minhas próprias asas”, justifica. Na visão da atriz, monólogos sempre são dificeis e solitários de se fazer. “Não tem com quem contar, a não ser com você mesma”. Por outro lado, ainda tem o grau de dificuldade do texto, que algumas vezes é rimado, e noutras, não. “Por exemplo: não tem onde me apoiar porque não tem nenhum cenário”, retrata.
Luana, que está em cartaz nos cinemas com o filme A Mulher Invisível (2008), de Cláudio Torres, ressalta que teatro não é como televisão – que é o mais puro entretenimento. O teatro possui, na sua opinião, “missão” muito maior. De qualquer jeito, como é entreter no cinema e, no teatro, apresentar um espetáculo denso? “Olha, a maior relação, na realidade, é o fato de ser a mesma atriz em ambos os casos. É muito bom: estou mostrando meu lado A e B, ao mesmo tempo.”
Pássaro da Noite, nas palavras de seu autor, José Antonio de Souza, é a história de alguém que, numa sexta-feira, perde-se completamente e, por meio das palavras, procura significados para o que ocorre ao seu redor e acha-se na solidão abissal. “Ela, personagem sem nome, é somente um pronome pessoal feminino, que vai contando e recontando sua própria vida para se localizar no tempo e no espaço.” Luana Piovani esteve muitas vezes em Brasília, seja com peças de teatro (a mais recente fora O Pequeno Príncipe) ou à frente dos filmes que estrelou. Sua relação com a cidade, afirma, é muito feliz. Segundo Luana, relação que se dá por meio da arte: “Percebi que Brasília é uma cidade que prestigia, de verdade, a arte.”
Uma curiosidade: o espetáculo segue uma linha “claricelispectoriana”. “Clarice é mais feminina. Mesmo sendo amarga, ela é mais doce”, define. E como trabalha a questão de ser ícone de beleza, no teatro? “Quero que as pessoas vão assistir por vários motivos. Mas, se as pessoas quiserem ir porque não têm nada para fazer, ainda assim, serei agradecida.”
E uma pergunta para fechar: já viu o ex, Dado Dolabela, no reallity- show A Fazenda. “Meu querido”, articula-se para responder, exercendo grande paciência: “Estou aqui para falar do meu filme e, principalmente, de minha peça. Não tenho tempo para coisas desinteressantes”, alfineta.
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Luana Piovani começou como modelo, em 1990. Um ano depois foi trabalhar no Japão |